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Disputa por minerais essenciais à inovação expõe nova lógica de poder global, conecta tecnologia, economia e conflitos internacionais
Por William Araújo
As chamadas terras raras — um grupo de 17 elementos químicos essenciais para as tecnologias mais avançadas do século XXI — deixaram de ser apenas um tema técnico da mineração para se tornarem um dos principais eixos estratégicos da geopolítica global. Elas estão no centro das cadeias de produção de tecnologia, energia limpa, defesa e inteligência artificial, e cada vez mais associadas a disputas de poder entre nações.
Esses elementos não são “raros” por escassez absoluta na natureza, mas pela complexidade de sua extração, refino e processamento industrial. Minerais como neodímio, disprósio, európio e cério são fundamentais na produção de ímãs permanentes, baterias, sensores, lasers, fibras ópticas e componentes eletrônicos de alta precisão. Sem eles, não existiriam smartphones modernos, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos avançados, sistemas de defesa de alta tecnologia nem grande parte da infraestrutura digital atual.
No centro desse mercado está a China, que concentra a maior parte da produção global e, principalmente, domina a etapa mais estratégica da cadeia: o refino e o processamento. Esse controle transforma as terras raras em um ativo geopolítico de alto valor, capaz de influenciar cadeias industriais inteiras e decisões estratégicas de governos.
As maiores reservas conhecidas de terras raras estão distribuídas principalmente entre China, Brasil, Índia, Austrália, Rússia, Vietnã, Estados Unidos e Groenlândia. O Brasil, inclusive, ocupa uma posição estratégica, com uma das maiores reservas do mundo, localizadas em regiões como Goiás e Minas Gerais. Ainda assim, o país segue com baixa capacidade de industrialização desses minerais, o que limita sua participação real no mercado tecnológico global.
A relevância dessas reservas vai além da economia. Ela se conecta diretamente à política internacional. Tensões recentes envolvendo grandes potências, como o conflito diplomático entre Estados Unidos e Venezuela, reforçam como minerais estratégicos passaram a integrar o tabuleiro geopolítico. Não se trata apenas de petróleo, gás ou energia tradicional, mas de controle sobre insumos que sustentam a nova economia digital, a transição energética e a indústria de alta tecnologia.
As terras raras são hoje essenciais para setores críticos como tecnologia de consumo, mobilidade elétrica, geração de energia limpa, indústria aeroespacial, defesa e inteligência artificial. Elas estão presentes em motores elétricos, baterias de alta performance, sistemas de guiamento, radares, sensores e componentes que alimentam centros de dados e infraestruturas de computação avançada.
Nesse cenário, o domínio sobre esses minerais representa mais do que riqueza mineral: representa soberania tecnológica. Países que controlam a cadeia produtiva das terras raras passam a deter influência direta sobre mercados inteiros, cadeias industriais globais e modelos de desenvolvimento econômico.
O Brasil surge, nesse contexto, como uma potência ainda não plenamente explorada. Suas reservas oferecem uma oportunidade concreta de protagonismo tecnológico e econômico, especialmente se associadas a políticas industriais, investimentos em refino, inovação e sustentabilidade. A exploração estratégica desses recursos pode posicionar o país como um fornecedor relevante na cadeia global de tecnologia, energia limpa e inovação.
O desafio, porém, é estrutural. Sem infraestrutura, política pública integrada e visão de longo prazo, as terras raras continuam sendo apenas um potencial inexplorado. Em um mundo onde tecnologia, geopolítica e economia estão cada vez mais interligadas, esses minerais deixam de ser apenas recursos naturais e passam a ser instrumentos de poder global.
As terras raras não movem apenas máquinas, chips e baterias. Elas movem a nova lógica de poder do século XXI.
