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O futebol brasileiro consegue ser engraçado nos mais diferentes quesitos. Na furada de bola de um atacante que estava cara a cara com o gol. Na coletiva de imprensa de um treinador recém-chegado. E principalmente nos protestos das torcidas.
Nesta semana, a vítima da vez — se assim podemos dizer — foi o Palmeiras, que sofreu uma goleada histórica para o Novorizontino pelo placar de 4 a 0, a maior da era Abel Ferreira. Algumas horas após a goleada, já na madrugada de terça para quarta-feira, torcedores foram até a sede do Palmeiras protestar através de pichações. E é claro que o erro ortográfico marcou presença na frase “Abel acabou a magia!”
Mas como conseguimos nos estressar com o time na terça-feira e no sábado já estar de volta ao estádio, como se nada tivesse acontecido? É simples, o futebol é um refúgio do nosso dia a dia. Os estádios são espaços onde abraçamos desconhecidos como se fossem velhos conhecidos, e ao final da partida voltamos para casa com a possibilidade de nunca mais encontrar a mesma pessoa naquele mesmo local.
No fundo, o protesto não nasce do afastamento, mas exatamente do vínculo. Só protesta quem se importa. O torcedor não picha um muro porque deixou de amar o clube, mas porque sente que algo que também é dele foi maltratado. A cobrança exagerada, muitas vezes irracional, é só mais uma face dessa relação intensa.
Voltar ao estádio dias depois do protesto não é incoerência, é costume. É quase um ritual semanal que organiza a nossa rotina, dá assunto para a mesa do bar e ainda cria memórias que atravessam gerações. O escudo no peito continua o mesmo, até nos dias em que o futebol apresentado pelos jogadores do nosso time decepciona.
No fim das contas, protestar e voltar caminham juntos porque o futebol não se resume ao resultado. É identidade, refúgio e paixão. A gente xinga, promete que não volta mais, mas aparece no jogo seguinte. Porque, gostemos ou não, o futebol segue sendo um dos poucos lugares onde sentir demais ainda é permitido.
