“Passamos a vida inteira nos preparando para nossa morte e, quando ela vem, não podemos assistir.”
A frase, de Luiz Fernando Verissimo, traduz com ironia e simplicidade a forma como o cronista olhava para a existência. Hoje, ela ganha ainda mais força diante de sua partida. Aos 88 anos, despede-se um dos maiores nomes do humor e da literatura brasileira, mas sua obra continua a atravessar gerações e a garantir que ele jamais seja esquecido.
Luiz Fernando Verissimo morreu neste sábado (30), em Porto Alegre, aos 88 anos. Ele deixa uma produção vasta, que marcou leitores em jornais, revistas, livros, além de ter levado sua escrita para a televisão, o teatro e o cinema.
Verissimo faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia, após semanas internado em Porto Alegre. Ele também convivia com problemas de saúde que marcaram seus últimos anos, como doença de Parkinson, complicações cardíacas — incluindo o uso de marca-passo desde 2016 — e sequelas de um AVC sofrido em 2021.
Uma carreira marcada pelo humor
Filho de Érico Verissimo, um dos maiores romancistas brasileiros, autor de clássicos como O Tempo e o Vento e Incidente em Antares, Luiz Fernando cresceu em um ambiente literário que respirava histórias. Se o pai ajudou a consolidar a identidade da literatura nacional e projetá-la para o mundo, o filho construiu seu próprio caminho com leveza e humor, criando uma voz única que conquistou milhões de leitores.
Apesar do imenso sucesso, Verissimo mantinha uma postura discreta. Tímido, não buscava os holofotes e raramente aparecia em público. Evitava entrevistas longas e não cultivava a figura de celebridade: preferia deixar que seus textos falassem por ele. Essa reserva pessoal contrastava com a enorme popularidade de suas crônicas, que circulavam em jornais e livros em todo o país.
Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, publicou dezenas de livros que venderam milhões de exemplares, e trabalhou em jornais e revistas como Zero Hora, O Globo, O Estado de S. Paulo e Veja (1982–1989), onde assinou uma coluna semanal de humor e tirinhas.
Da literatura para o grande público
Verissimo também marcou presença na televisão brasileira, especialmente na TV Globo:
-
O Analista de Bagé (1981) – Criado para o programa Viva o Gordo, apresentado por Jô Soares. Tornou-se ícone do humor brasileiro e se transformou em livro, quadrinhos e peça de teatro.
-
TV Pirata (1988–1992) – Colaborou como redator no programa de humor da Globo.
-
Comédias da Vida Privada (1995–1997) – Série inspirada nas crônicas de Verissimo, mostrando o cotidiano da classe média urbana com humor e crítica social.
-
A Vida Como Ela É (1996) – Série do Fantástico, baseada em contos de Nelson Rodrigues, mas que recebeu forte influência do estilo cotidiano de Verissimo.
Principais obras e números
Ao longo da carreira, Verissimo publicou mais de 80 livros, entre crônicas, romances e coletâneas. Entre os mais conhecidos estão:
-
O Analista de Bagé (1981)
-
Comédias da Vida Privada (1994)
-
As Mentiras que os Homens Contam (2000)
-
O Clube dos Anjos (1998)
-
Borges e os Orangotangos Eternos (2000)
-
A Décima Segunda Noite (2006)
Números impressionantes:
-
Mais de 5 milhões de exemplares vendidos
-
Obras traduzidas para mais de 15 idiomas
Prêmios e reconhecimentos:
-
Prêmio Juca Pato (1996)
-
Prêmio Jabuti de Literatura (2017)
-
Prix Deux Océans (2004)
-
Medalha de Resistência Chico Mendes
Frases que marcaram
-
“O mundo não é ruim, só está mal frequentado.”
(Comédias da Vida Privada, 1994) -
“Resignemo-nos à ignorância, que é a forma mais cômoda de sabedoria.”
(As Mentiras que os Homens Contam, 2000) -
“Brasil: esse estranho país de corruptos sem corruptores.”
(Crônica publicada em jornais nos anos 1990, posteriormente reunida em coletâneas) -
“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo.”
(O Melhor das Comédias da Vida Privada) -
“Passamos a vida inteira nos preparando para nossa morte e, quando ela vem, não podemos assistir.”
(Citação reproduzida em entrevistas e coletâneas de frases do autor)
Os últimos anos
Luiz Fernando Verissimo levava uma vida reclusa e tranquila na casa herdada do pai, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Ao lado da esposa, Lúcia Helena Massa — com quem foi casado por mais de 60 anos —, manteve uma rotina doméstica marcada pela simplicidade: lia lentamente, assistia a filmes, acompanhava apaixonadamente o Internacional, ouvia jazz e jogava paciência no computador.
Após o AVC de 2021 e o avanço do Parkinson, perdeu parte da autonomia para escrever, mas continuava a ler e a se interessar pelo cotidiano. Tímido por natureza, Verissimo sempre evitou os holofotes, e nesse período coube a Lúcia ser sua voz pública, intermediando entrevistas, contatos e até a entrega de suas crônicas aos jornais.
Além da esposa, deixa três filhos — Fernanda, Mariana e Pedro — e netos que seguem ligados à preservação da memória literária da família Verissimo, que atravessa gerações desde o legado de Érico.