Imagine uma fintech moderna: contas digitais, cartões empresariais, agilidade e facilidades que atraíam empreendedores. Por trás dessa aparência, entretanto, pulsava o centro de um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro já descobertos no país — como revelou a Operação Carbono Oculto.
A origem da instituição
O BK Instituição de Pagamento S.A., formalmente o BK Bank, foi registrado em 23 de agosto de 2012 em Barueri (SP) como sociedade anônima fechada, com capital social de R$ 9 milhões. Em 19 de julho de 2022, inaugurou filial em Ribeirão Preto (SP). A direção era liderada por Danilo Augusto Tonin Elena (presidente desde 2022), com Caio Henrique Hyppolito Galvani e Camila Cristina de Moura Silva como diretores.
Nota da empresa
Logo após a deflagração da operação, o BK Bank divulgou nota oficial. A fintech afirmou ter sido surpreendida pela ação policial, declarou que sempre atuou dentro da legalidade e informou que está à disposição das autoridades para colaborar com todos os esclarecimentos. A empresa destacou ainda que suas atividades permanecem registradas junto ao Banco Central.
Reação do setor
Embora a ABFintechs, principal associação do setor, não tenha se pronunciado sobre o caso, houve críticas vindas de outros atores do mercado. O Instituto Empresa apontou que o episódio expõe fragilidades de governança e incoerências nos discursos de responsabilidade social propagados por parte do mercado financeiro. Para o presidente Eduardo Silva, “o verdadeiro compromisso com ESG não está apenas em relatórios ou slogans, mas na adoção de sistemas sólidos de governança e transparência”.
Banco invisível do crime
A investigação evidenciou que, entre 2020 e 2024, o BK movimentou R$ 17,7 bilhões em operações suspeitas, funcionando como um banco paralelo — invisível aos órgãos de fiscalização. Permitia que o PCC transitasse bilhões sem levantar suspeitas por meio de “contas empresariais” e vouchers corporativos, oferecendo fachada de legitimidade.
“Estamos desmantelando a refinaria do crime”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na coletiva realizada em Brasília, reforçando o peso histórico da operação.
A ofensiva policial
Na manhã de quinta-feira, 28 de agosto, a Polícia Federal, Receita e Ministério Público deflagraram uma ofensiva inédita: 1.400 agentes em ação, 200 mandados e 350 alvos em 10 estados. O BK Bank foi um dos focos centrais. Além da coleta de provas digitais, houve bloqueio de contas, bens e imóveis ligados à rede criminosa.
O poder da fintech no esquema
A Receita Federal detalhou que o BK atuava como instrumento de ocultamento por meio de contas “bolsão”, onde recursos de diversos clientes eram concentrados, dificultando rastreamento.
Para Andrea Costa Chaves, subsecretária de fiscalização da Receita, a gravidade é clara: “São cerca de mil postos de combustíveis em mais de 10 estados, movimentando R$ 52 bilhões. Uma fintech atuava praticamente como um banco paralelo do crime organizado”.
Reação do mercado financeiro
O impacto no mercado foi imediato. O Ibovespa fechou em alta de 1,32%, aos 141.049 pontos, depois de ultrapassar momentaneamente a marca dos 142 mil pontos. As ações de distribuidoras de combustíveis lideraram os ganhos: Ultrapar (+7,32%), Vibra (+4,75%) e Raízen (+2,83%).
Na contramão, a Reag Investimentos, citada na operação, viu suas ações despencarem mais de 14%, apesar de também ter emitido nota afirmando colaboração integral com as autoridades.
Já nos mercados internacionais, não houve resposta imediata associada ao caso — as oscilações recentes seguem ligadas a fatores macroeconômicos globais, sem conexão direta com a operação.
O futuro do BK Bank é incerto
A instituição está sob investigação federal, com credibilidade arrasada e risco real de:
- cassação da licença de operação;
- dissolução judicial;
- endurecimento regulatório para fintechs, alinhando-as à rigorosa regulação dos bancos tradicionais.