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O dito pelo não dito e o escrito pelo São Benedito
Havia uma esperança relativa à modernidade: a dos efeitos do projeto iluminista e industrial: o domínio da razão, da ciência e da técnica traria inevitavelmente emancipação, liberdade, evolução moral e felicidade material para a humanidade.
A ciência avançou extraordinariamente. Mas o avanço não se traduziu em benefícios sociais equivalentes. As guerras, a miséria extrema, o crime, a mentira, a precariedade social se acentuaram. Até um Donald Trump e um Vladimir Putin a modernidade produziu. As exceções que confirmam a regra desse cenário desolador talvez estejam na União Europeia, no Japão, na Coreia do Sul.
Havia também uma esperança de que a democratização do acesso ao conhecimento trouxesse julgamentos mais equilibrados e decisões menos controvertidas. Os livros, as universidades, os jornais, o rádio, a televisão e a internet com os portais e as redes sociais disponibilizaram todo o conhecimento a todas as pessoas.
E qual foi o efeito? Decisões cada vez mais discutidas, versões cada vez mais contraditórias e discussões e atitudes cada vez mais irracionais.
Polarização.
Flutua no ar um certo efeito VAR: se a decisão do lance beneficia o meu time, representa o avanço da tecnologia. Se prejudica, o árbitro de vídeo destruiu o encanto do futebol.
Vamos pegar 3 exemplos desta semana:
- O jurista Miguel Reale Júnior questionou possíveis ações do senador Flávio Bolsonaro como presidente da República. A anistia aos condenados pelo 8 de janeiro legitimaria o golpe. A submissão aos Estados Unidos seria um rebaixamento da nossa soberania. O Brasil passaria para a série B das nações. Mas metade do país acha que não houve tentativa de golpe. Muita gente não leu nenhuma linha do relatório de 884 páginas da Polícia Federal. Mas é capaz de acarear qualquer agente que tenha participado da investigação. Metade também acha que o país não é soberano. Acha que quem manda aqui é o crime organizado. E vai tentar provar que focinho de porco não é tomada elétrica, como se dizia no tempo dos faraós.
- A cidade de Nova York decretou emergência por causa dos casos de sarampo. A OMS – Organização Mundial de Saúde tinha advertido para o risco da volta da doença, O sarampo chegou a ser erradicado das Américas. Mas não globalmente. Então se o índice da vacinação cai, a doença pode retornar. Mas tenta explicar isso para um ativista anti-vacina. Os benefícios das vacinas até um certo tempo atrás pareciam inquestionáveis, E na verdade, são. Mas nos dias atuais uma parcela grande questiona e essa atitude traz de volta a doença distribui o risco da contaminação também para a maioria que não questiona. Já vi sujeito com cigarro aceso na mão dizendo que vacina faz mal. E não tem conversa nem Cristo que dê jeito,
- O terceiro caso é o do cachorro Orelha. O delegado-geral da polícia civil de Santa Catarina na época, primeiro semestre deste ano, deu entrevista coletiva nesta semana. Disse que a polícia foi imatura, que a pressão era muito grande, que ele mesmo não estando envolvido diretamente na investigação acabou dando entrevista precipitada… Uma xaropada completa. O cachorro morreu e ninguém vai responder por isso. Quando o advogado Marcelo Pavão previu essa pizza, eu não acreditei. A indignação com a brutalidade das agressões ao Orelha era nacional. Gigante. Mas o caso foi arquivado e deixa um cheiro claro de acobertamento. Havia famílias poderosas envolvidas.
O delegado geral, Ulisses Gabriel, diz que não teve benefícios à imagem pelo caso. Que só “apanhou”. O primeiro comentário embaixo da entrevista no portal UOL é:
“Como não teve benefício à imagem? Tanto teve que acaba de se eleger deputado estadual.”
Como diria Shakespeare (ou será que foi Napoleão Bonaparte?):
“Durma-se com um barulho desses”.
