|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Mundo – As últimas forças militares dos Estados Unidos deixaram o Iraque nesta quarta-feira (30), encerrando mais de duas décadas de presença militar no país. A retirada foi concluída principalmente a partir da base aérea de Erbil, na região autônoma do Curdistão iraquiano.
O fim da presença das tropas americanas ocorre 23 anos após a invasão liderada pelos Estados Unidos que derrubou o então presidente Saddam Hussein. O acordo para a retirada foi firmado em 2024, durante o governo de Joe Biden, e executado pela administração de Donald Trump.
A saída foi celebrada por autoridades e grupos aliados ao Irã como um marco para a soberania iraquiana. Ao mesmo tempo, integrantes das forças de segurança e analistas do país manifestaram preocupação com a possibilidade de perda de capacidades militares e de inteligência que eram fornecidas pelos Estados Unidos.
Presença americana começou com a invasão de 2003
Os Estados Unidos invadiram o Iraque em março de 2003, em uma operação que derrubou Saddam Hussein e provocou anos de conflito e instabilidade.
As tropas americanas permaneceram no país até o fim de 2011, quando foram retiradas. Menos de três anos depois, porém, voltaram ao Iraque após o avanço do Estado Islâmico, que chegou a controlar aproximadamente um terço do território iraquiano.
A nova missão americana esteve concentrada no apoio às forças iraquianas durante a guerra contra o grupo extremista, entre 2014 e 2017.
Mais de 4.500 militares americanos morreram ao longo das operações no Iraque. O projeto Iraq Body Count estima que mais de 200 mil civis iraquianos morreram em decorrência da violência associada ao conflito.
Por que os EUA deixaram o Iraque?
A retirada faz parte de um acordo firmado em 2024 para encerrar a missão da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos no Iraque e transferir aos iraquianos a responsabilidade integral pela segurança do país.
Com a saída das tropas, o governo iraquiano passa a assumir diretamente as operações de segurança, enquanto a relação com os Estados Unidos entra em uma nova fase.
O primeiro-ministro iraquiano, Ali Faleh al-Zaidi, afirmou que o encerramento da missão internacional não significa o fim da luta contra o terrorismo, mas uma transição para uma etapa em que o Iraque assume plena responsabilidade por sua segurança e estabilidade.
Retirada preocupa autoridades de segurança
Embora a saída das tropas tenha amplo apoio entre os iraquianos, há preocupação sobre a capacidade das forças nacionais de lidar sozinhas com possíveis ameaças.
Durante anos, os Estados Unidos forneceram treinamento, equipamentos, inteligência, vigilância aérea e reconhecimento às forças iraquianas. A perda desse suporte é apontada por autoridades como um dos principais desafios do período pós-retirada.
Um dos riscos mencionados por analistas é a possibilidade de grupos armados ligados ao Irã ampliarem sua influência política e militar dentro do Iraque. A presença americana funcionava, segundo especialistas ouvidos pela Reuters, como um contrapeso à atuação desses grupos.
Estado Islâmico ainda é uma preocupação
Outro ponto de atenção é a atuação remanescente do Estado Islâmico.
O grupo perdeu o território que controlava no Iraque há quase uma década, mas mantém células clandestinas no país. A retirada americana ocorre, portanto, em um momento em que autoridades iraquianas avaliam a capacidade das forças nacionais de impedir uma reorganização dos militantes.
Entre as preocupações está a perda do acesso a informações de inteligência e recursos de vigilância que ajudavam a localizar integrantes do grupo.
Analistas também alertam para a possibilidade de células do Estado Islâmico tentarem explorar eventuais fragilidades das forças de segurança durante a transição. A avaliação, porém, é de risco, e não de que uma retomada territorial do grupo esteja em curso.
Irã e aliados comemoram saída americana
O Irã e grupos armados aliados consideram a retirada uma vitória estratégica. Teerã há anos defende a saída das tropas americanas do Oriente Médio, enquanto organizações alinhadas ao governo iraniano têm forte presença política e militar no Iraque.
A retirada pode ampliar o espaço de atuação desses grupos, segundo analistas ouvidos pela Reuters. A avaliação é de que eles poderão tentar aumentar sua influência sobre decisões políticas e instituições de segurança iraquianas.
Para o Iraque, entretanto, a saída também representa uma mudança histórica: depois de mais de 20 anos de presença militar estrangeira, o governo passa a ter responsabilidade direta sobre a segurança nacional sem a presença das forças americanas no território.
O que muda depois da retirada?
O encerramento da missão americana não significa o desaparecimento de toda cooperação entre os dois países. A mudança principal é a transferência da responsabilidade operacional de segurança para as instituições iraquianas.
O desafio agora é manter a capacidade de combater grupos extremistas, administrar a influência de diferentes milícias e evitar que disputas entre forças internas e atores externos provoquem uma nova escalada de violência.
A retirada encerra um dos capítulos mais longos da intervenção militar americana no Oriente Médio, mas seus efeitos sobre a segurança e o equilíbrio político do Iraque ainda dependerão da capacidade do governo de exercer controle sobre o território e suas instituições.

