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Educação – Com a aproximação do Enem 2026, muitos estudantes entram na reta final de preparação tentando encontrar uma resposta para uma pergunta difícil: como transformar uma redação boa em um texto capaz de ultrapassar os 900 pontos?
Dominar a estrutura dissertativo-argumentativa é importante, mas, segundo professores ouvidos pela CNN Brasil, não é suficiente. Detalhes como a qualidade dos argumentos, a escolha do repertório, o domínio da norma-padrão e a construção da proposta de intervenção podem fazer diferença na pontuação.
Para quem já escreve com certa facilidade, o momento é de identificar erros recorrentes e trabalhar justamente nos pontos que ainda impedem a evolução da nota.
Escrever com frequência ajuda a identificar pontos fracos
Para Fernando Andrade, professor de redação do Estratégia Vestibulares, uma das principais estratégias é manter uma rotina de produção textual.
A recomendação é escrever pelo menos uma redação por semana para quem já apresenta domínio intermediário. A prática permite perceber problemas que podem passar despercebidos durante o estudo teórico.
Para estudantes que ainda têm dificuldades e costumam obter notas abaixo de 700 pontos, Andrade recomenda aumentar a frequência para pelo menos duas produções semanais, combinando um resumo e uma dissertação.
Mais importante do que simplesmente escrever vários textos, porém, é analisar os erros cometidos. Afinal, repetir a mesma falha dez vezes não a transforma em acerto.
O que pode levar uma redação de 900 a 1.000 pontos?
Uma redação acima de 900 pontos já precisa cumprir adequadamente os critérios avaliados pelo exame. Para alcançar a pontuação máxima, entretanto, o candidato precisa demonstrar domínio ainda maior do tema e capacidade de desenvolver uma argumentação própria.
Andrade chama esse diferencial de “traço autoral”.
Na prática, isso significa não apenas apresentar um repertório conhecido ou um argumento correto, mas explicar de maneira aprofundada como aquela informação se relaciona ao problema discutido.
Um exemplo citado pelo professor é o tema da edição anterior do Enem. Em vez de mencionar genericamente a “tradição africana”, textos de alto desempenho poderiam especificar aspectos como culinária, religião e música.
A diferença está justamente no detalhamento. Quanto mais precisamente o candidato consegue desenvolver uma ideia pertinente ao tema, mais consistente tende a ser sua argumentação.
Repertório não é apenas decorar citações
Filmes, livros, acontecimentos históricos, conceitos filosóficos e referências sociológicas podem ser utilizados na redação. Mas o repertório precisa cumprir uma função dentro do argumento.
Maria de Lourdes Cunha, professora de Língua Portuguesa da rede Objetivo, destaca que referências aparentemente simples podem funcionar bem quando são aplicadas corretamente ao contexto.
Por isso, decorar uma coleção de frases de filósofos ou escritores não garante uma boa pontuação.
O estudante precisa conseguir responder a uma pergunta essencial: por que essa referência ajuda a explicar o problema apresentado no tema?
Uma maneira prática de se preparar é manter um caderno de repertórios. Andrade sugere registrar fatos históricos, conceitos e citações e relacioná-los a grandes eixos temáticos, como saúde, tecnologia, meio ambiente e desigualdade social.
Assim, o estudante constrói um repertório organizado, em vez de tentar memorizar informações isoladas.
Evite argumentos repetidos e linguagem informal
Outro cuidado importante é não desenvolver os dois parágrafos argumentativos praticamente da mesma maneira.
A professora Maria de Lourdes recomenda evitar a repetição de exemplos e argumentos, além de variar os conectivos utilizados na construção do texto.
Também é importante eliminar marcas de oralidade. Expressões como “tipo”, “acho” e outras formas muito informais não combinam com a linguagem exigida na redação do Enem.
A clareza também deve orientar a construção das frases.
Períodos excessivamente longos podem aumentar a possibilidade de erros de concordância, pontuação e organização das ideias. Quando houver dúvida sobre a estrutura de uma frase, uma alternativa é dividi-la em períodos menores, desde que a relação entre as ideias seja preservada.
Como melhorar cada uma das cinco competências
A redação do Enem é avaliada a partir de cinco competências, cada uma relacionada a um aspecto diferente do texto.
Competência 1: domínio da norma-padrão
O primeiro passo é descobrir quais erros aparecem com maior frequência nas próprias redações.
Concordância, regência, pontuação, acentuação e construção dos períodos são alguns dos pontos que merecem atenção.
Em vez de estudar gramática de forma completamente genérica na reta final, pode ser mais produtivo concentrar esforços nos erros que aparecem repetidamente nos próprios textos.
Competência 2: compreensão do tema e repertório
Não basta apresentar uma referência cultural ou histórica. É necessário demonstrar que ela tem relação direta com o assunto proposto.
Uma citação famosa, por exemplo, pode perder força se for colocada no texto apenas para preencher espaço.
O repertório precisa estar conectado à discussão e ajudar o leitor a compreender o argumento apresentado.
Competência 3: qualidade da argumentação
É nessa competência que o chamado traço autoral ganha importância.
O candidato precisa desenvolver argumentos consistentes, explicar relações de causa e consequência e evitar afirmações genéricas.
Uma boa estratégia é perguntar, depois de escrever cada argumento: “eu expliquei essa ideia ou apenas afirmei que ela existe?”
Se a resposta for a segunda opção, provavelmente ainda há espaço para aprofundamento.
Competência 4: coesão
Os conectivos ajudam a organizar a progressão das ideias.
Expressões como “em primeiro lugar”, “além disso” e outras podem facilitar a construção dos parágrafos, mas não devem ser utilizadas de maneira mecânica.
Também é importante observar as relações entre as frases dentro de cada parágrafo, garantindo que uma ideia conduza naturalmente à seguinte.
Competência 5: proposta de intervenção
A conclusão precisa apresentar uma proposta de intervenção relacionada ao problema discutido.
Segundo a orientação apresentada por Andrade, uma proposta completa deve conter cinco elementos:
- agente: quem realizará a ação;
- ação: o que será feito;
- meio ou modo: como a medida será colocada em prática;
- finalidade: qual resultado se pretende alcançar;
- detalhamento: informação adicional que torne a proposta mais específica.
Uma intervenção genérica, como simplesmente “o governo deve resolver o problema”, não apresenta o mesmo nível de detalhamento de uma proposta que explica quem deve agir, qual medida será adotada, como ela será executada e qual objetivo pretende alcançar.
O que fazer na reta final antes do Enem?
Com pouco tempo até a prova, o estudante não precisa tentar aprender absolutamente tudo. O mais útil é descobrir onde ainda perde pontos e concentrar a preparação nesses pontos.
Uma rotina possível envolve produzir uma redação semanal para quem já tem domínio intermediário e aumentar a frequência para quem apresenta dificuldades maiores.
Depois de cada texto, vale revisar separadamente as cinco competências e criar uma lista dos erros que mais aparecem.
Também é importante ampliar o repertório de maneira organizada, relacionando acontecimentos históricos, conceitos e referências culturais a diferentes eixos temáticos.
A redação de alto desempenho não depende de uma fórmula secreta. Ela resulta da combinação entre compreensão do tema, argumentação consistente, repertório bem aplicado, domínio da escrita e uma proposta de intervenção completa.
Na reta final, portanto, o objetivo não deve ser apenas escrever mais. É escrever, revisar, identificar o problema e tentar não cometê-lo novamente no texto seguinte.

