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O ressentimento na origem na polarização
É difícil buscar a origem da polarização política que estraçalha o Brasil neste século 21?
É.
Mas o diretor do Instituto Quaest, Felipe Nunes, simplifica a questão. No programa Conversa com Bial, ele apresenta a resposta de segmentos polarizados da sociedade brasileira para duas perguntas simples;
- A sua vida melhorou nos últimos 20 anos?
Pretos, pobres, mulheres, nordestinos, em esmagadora maioria, respondem que sim.
Brancos de renda mais alta, principalmente do Sul e do Sudeste respondem que não.
Isso explica a rivalidade política. Mas não explica o ódio.
Aí vem a segunda pergunta:
- Você acha que esses que expressam essa melhora no nível de vida mereceram esse progresso?
Brancos, de renda mais alta, principalmente do Sul e do Sudeste, dizem que não.
Daí o ressentimento. A concentração de renda no Brasil continua altíssima. Pornográfica. Uma das maiores desigualdades do mundo. Mas essa pequena melhora na vida dos mais pobres, e o consequente maior compartilhamento dos espaços sociais, gera essa reação.
O nome disso é egoísmo. O apelido, falta de solidariedade.
Vamos reproduzir o conceito de solidariedade, que vem do latim “solido”:
A palavra solidarité (responsabilidade mútua) foi cunhada na França em 1765 a partir do adjetivo solidaire (“inteiro, completo, interdependente”).
O sentido original: Inicialmente, o termo tinha um forte sentido jurídico e econômico de responsabilidade partilhada — ou seja, quando um grupo se torna “sólido” e unido de forma que a responsabilidade ou o apoio recai sobre todos os membros. Com o tempo, o conceito expandiu-se para o plano moral e humanitário de união e ajuda ao próximo.
O egoísmo individual tem origem exatamente nessa falta de identificação com o todo.
Tem uma conta que o economista Marcio Pochmann apresentou no final do segundo mandato de Lula que traduz de forma clara e simples esse egoísmo social – coletivo – no Brasil.
Em números atualizados:
– Quase 20 milhões de famílias vão receber pelo Bolsa Família neste ano de 2026 R$ 165 bilhões de reais. O reajuste anunciado nesta semana já está incluído.
– 25 mil famílias que têm bancos, instituições financeiras ou simplesmente títulos da dívida pública vão receber neste ano RS 1,58 trilhão !!!
É uma desproporção acintosa.
Cada família do Bolsa Família vai receber neste ano em média R$ 8.250.
Cada família que recebe juros, R$ 63,2 milhão !!!
Quando a escravidão foi abolida no Brasil gerou esse tipo de reação. Parecida, aliás, com a resistência ao fim da escala 6 x 1.
A casa própria, para a parcela mais pobre e esmagadoramente maior da sociedade brasileira, é definida pela palavra “sonho”.
O acesso à picanha é ironizado. A competição entre os desiguais que estudaram nas melhores escolas particulares e nas piores escolas públicas pelas vagas nas universidades e nos concursos para cargos públicos é chamada pelo bonito nome de “meritocracia”.
E o dinheiro minguado dos programas sociais e das aposentadorias são xingados como rombo fiscal. Sobre o trilhão e meio anual de juros, um silêncio incômodo.
O ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, expressou esse ressentimento quando apontou como distorções o filho do zelador estudando Medicina numa escola particular pelo Fies e a empregada doméstica voando para a Disney.
Essa é a triste realidade que as duas perguntas apresentadas pelo diretor do Quaest na Conversa com Bial escancaram.
