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Educação – Para muitos estudantes, a matemática parece ficar mais difícil a cada ano escolar. Um conteúdo que não foi bem compreendido nos primeiros anos pode reaparecer mais tarde de forma mais complexa, dificultando a aprendizagem de novos conceitos. Os resultados do Pisa 2025 ajudam a dimensionar esse problema no Brasil.
Na avaliação internacional coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil alcançou 377 pontos em matemática, desempenho inferior ao registrado nas outras áreas avaliadas. O resultado também mostra que as dificuldades na disciplina continuam sendo um desafio importante para a educação brasileira.
Mais do que uma questão de aprender fórmulas ou fazer cálculos, especialistas apontam que a matemática depende de uma sequência de conhecimentos. Quando uma etapa não é consolidada, o estudante pode carregar aquela dificuldade para os anos seguintes.
As lacunas começam nos primeiros anos
As dificuldades podem aparecer relativamente cedo na trajetória escolar. Dados do Saeb analisados pelo Todos Pela Educação mostram uma queda significativa na proporção de estudantes da rede pública com aprendizagem considerada adequada em matemática entre os anos finais do ensino fundamental.
No 5º ano, 50,6% dos alunos apresentavam aprendizagem adequada. No 9º ano, esse percentual caía para 18,8%.
A diferença ajuda a explicar por que conteúdos considerados mais avançados podem se tornar especialmente difíceis. Operações básicas, frações e compreensão do sistema de numeração, por exemplo, servem de fundamento para conhecimentos que aparecem posteriormente.
Quando essas habilidades não são consolidadas, o estudante pode avançar de série sem necessariamente dominar aquilo que seria esperado para aquela etapa.
É como construir uma sequência de degraus deixando alguns deles incompletos. O próximo passo continua existindo, mas fica mais difícil alcançá-lo.
Um conteúdo depende do outro
De acordo com especialistas ouvidos sobre o tema, a matemática possui uma característica que contribui para o acúmulo das dificuldades: muitos conteúdos estão diretamente relacionados.
O estudante que ainda apresenta problemas com divisão e frações pode encontrar obstáculos quando passa a estudar equações, porcentagens, expressões algébricas ou notação científica.
Isso não significa que uma dificuldade em determinado conteúdo impeça definitivamente novos aprendizados. O problema surge quando ela não é identificada e trabalhada antes que novos conceitos sejam acrescentados.
Para Mateus Moratorio, gerente de educação do Instituto Sonho Grande, identificar o que o aluno ainda não aprendeu é parte fundamental do processo de recuperação da aprendizagem.
A gerente de impacto do Instituto Sol, Patricia Borges, também chama atenção para a necessidade de identificar essas diferenças dentro da própria sala de aula.
Nem todos os alunos começam do mesmo ponto
Uma das dificuldades para o professor está justamente na diferença entre os estudantes de uma mesma turma.
Em um diagnóstico de entrada realizado pelo Instituto Sol em 2026, 765 estudantes do mesmo ano escolar apresentaram resultados entre 93 e 389 pontos.
Uma diferença dessa dimensão significa que alunos oficialmente matriculados na mesma etapa podem ter conhecimentos muito diferentes. Enquanto alguns já estão preparados para avançar, outros ainda precisam retomar conteúdos de anos anteriores.
Nesse cenário, uma aula planejada para toda a turma no mesmo ritmo pode não atender igualmente às necessidades de cada estudante.
Por isso, especialistas defendem estratégias de diagnóstico e recuperação que permitam identificar as lacunas e organizar intervenções de acordo com as necessidades dos alunos.
Matemática também envolve leitura e interpretação
Outro fator que pode passar despercebido é a relação entre matemática e linguagem.
Muitos exercícios não apresentam apenas números e operações. O estudante precisa ler uma situação, compreender o enunciado, identificar as informações relevantes e descobrir qual procedimento deve utilizar.
Assim, dificuldades de leitura e interpretação podem interferir diretamente na resolução de problemas matemáticos.
O aluno pode até conhecer determinada operação, mas não conseguir identificar que ela deve ser utilizada naquele exercício.
Por isso, melhorar o desempenho em matemática não depende exclusivamente de aumentar a quantidade de exercícios ou decorar fórmulas. A compreensão do problema também faz parte da aprendizagem.
O medo de errar pode virar uma barreira
A relação dos estudantes com a matemática também pode ser influenciada pelas experiências acumuladas ao longo da vida escolar.
Erros frequentes, dificuldades não resolvidas e experiências negativas podem fazer com que alguns alunos desenvolvam receio diante da disciplina.
Nesse contexto, uma dificuldade específica pode acabar sendo interpretada pelo próprio estudante como uma incapacidade permanente.
A mudança dessa percepção é apontada pelos especialistas como parte importante do processo. Em vez de considerar que “não consegue aprender matemática”, o aluno precisa compreender que determinado conteúdo ainda não foi aprendido e pode ser retomado.
Essa diferença de perspectiva pode contribuir para aumentar a disposição para tentar novamente e lidar com os erros como parte do processo de aprendizagem.
Como a escola pode recuperar o que ficou para trás?
Uma das estratégias indicadas pelos especialistas é começar pelo diagnóstico.
Antes de apresentar um novo conteúdo, a escola precisa identificar quais conhecimentos os estudantes já dominam e quais ainda precisam ser desenvolvidos.
A partir desse levantamento, podem ser organizados grupos temporários de aprendizagem ou atividades específicas para determinadas dificuldades.
Materiais concretos também podem ajudar, especialmente quando o estudante ainda apresenta problemas com operações básicas. Em algumas situações, recursos como calculadoras podem ser utilizados como ferramentas de apoio, sem substituir a compreensão dos conceitos.
O objetivo é evitar que a recuperação aconteça apenas depois que o problema se tornou muito grande.
Tecnologia pode ajudar, mas não substitui o professor
Ferramentas digitais também podem participar desse processo. Plataformas de aprendizagem, conteúdos enviados por aplicativos de mensagem e sistemas capazes de identificar dificuldades podem auxiliar no acompanhamento individualizado.
No Instituto Sol, por exemplo, ferramentas digitais e um tutor de inteligência artificial são utilizados para oferecer apoio personalizado aos estudantes.
A tecnologia pode ajudar a organizar informações e identificar padrões de dificuldade, liberando parte do tempo do professor para a intervenção pedagógica.
Mas especialistas ressaltam que a tecnologia não resolve sozinha o problema. A recuperação precisa estar integrada ao planejamento da escola, contar com tempo adequado e envolver formação dos professores.
O desafio vai além da sala de aula
Os resultados do Pisa 2025 mostram que as dificuldades em matemática não são exclusivas do Brasil. O desempenho médio dos países da OCDE também apresentou queda na última década.
No caso brasileiro, porém, o resultado reforça a necessidade de olhar para o percurso completo do estudante, e não apenas para o desempenho em uma prova.
Uma lacuna de aprendizagem pode começar nos primeiros anos, permanecer sem diagnóstico e reaparecer posteriormente em conteúdos cada vez mais complexos.
Por isso, enfrentar o problema da matemática passa por identificar dificuldades mais cedo, oferecer recuperação contínua e adaptar as estratégias de ensino às diferentes necessidades presentes em uma mesma turma.
A matemática pode continuar sendo uma disciplina desafiadora, mas dificuldade não significa incapacidade. Quando o que ficou para trás é identificado e trabalhado, o estudante ganha a possibilidade de reconstruir a base necessária para seguir aprendendo.

