|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Educação – A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes brasileiros, seja para resumir textos, organizar trabalhos, buscar informações ou esclarecer dúvidas. Com a expansão dessas ferramentas, surge uma questão que vai além de saber se a tecnologia deve ou não estar presente nas escolas: as diferentes condições das redes de ensino podem fazer com que a IA amplie desigualdades que já existem na educação?
O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, em setembro, diretrizes para orientar o uso da inteligência artificial na educação brasileira. O documento estabelece parâmetros para diferentes aplicações da tecnologia e busca definir limites para situações em que decisões pedagógicas precisam permanecer sob responsabilidade humana.
Entre as medidas previstas está a proibição do uso de IA para corrigir, avaliar ou atribuir notas a redações e questões dissertativas. O texto também estabelece restrições ao uso autônomo dessas ferramentas por crianças até o 5º ano.
As regras ainda dependem de homologação do Ministério da Educação (MEC) para que tenham os efeitos previstos.
O acesso à mesma IA não significa a mesma experiência
A presença de uma ferramenta de inteligência artificial em duas escolas diferentes não garante que os estudantes terão experiências semelhantes.
Esse é um dos pontos levantados por Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, em entrevista à CNN Brasil. Para o especialista, a diferença está menos na ferramenta utilizada e mais nas condições pedagógicas e estruturais disponíveis para orientar seu uso.
Uma escola pode ensinar o aluno a utilizar a IA para comparar argumentos, verificar informações e identificar fontes. Outra pode acabar permitindo que a tecnologia simplesmente produza respostas prontas para trabalhos e atividades.
Nesse cenário, fatores como formação dos professores, infraestrutura digital, suporte técnico e capacidade de gestão passam a ser determinantes.
O próprio Ministério da Educação já vem tratando a formação e o uso responsável da IA como parte das políticas de educação digital. Entre as iniciativas federais estão documentos orientadores voltados à integração ética, crítica e segura da tecnologia nas escolas.
Desigualdade educacional já existe antes da IA
A discussão sobre inteligência artificial ocorre em um sistema educacional que já apresenta diferenças importantes entre estudantes de diferentes condições socioeconômicas.
Os resultados do PISA 2025 mostram que o status socioeconômico respondeu por 15,9% da variação do desempenho em Ciências entre estudantes brasileiros, acima da média de 11,6% registrada nos países da OCDE. A diferença de desempenho entre os 25% de estudantes brasileiros em melhor situação socioeconômica e os 25% em pior situação chegou a 96 pontos em Ciências.
O cenário ajuda a explicar por que o debate sobre IA não pode se limitar à distribuição de computadores ou ao acesso a aplicativos.
Uma rede de ensino que possui conexão adequada, professores capacitados, equipes técnicas e mecanismos para acompanhar os resultados tem mais condições de estabelecer objetivos pedagógicos para a tecnologia. Já uma rede com menos recursos pode enfrentar dificuldades até mesmo para avaliar quais ferramentas são adequadas.
Formação de professores é um dos principais desafios
A capacitação dos educadores aparece como um dos pontos centrais para evitar que a inteligência artificial seja incorporada às escolas apenas como mais uma ferramenta tecnológica.
Para Henriques, aprender a utilizar um aplicativo não é suficiente. O professor precisa compreender quando a IA pode contribuir para a aprendizagem, quais são seus limites e como orientar os alunos para que não substituam o próprio raciocínio pela resposta produzida por uma máquina.
As diretrizes e documentos discutidos pelo CNE e pelo MEC também destacam a necessidade de desenvolver competências digitais de maneira crítica, ética e responsável. Documentos oficiais do governo federal defendem que a IA seja utilizada como instrumento de apoio à aprendizagem, sem retirar o protagonismo dos profissionais da educação.
Além da formação individual, as próprias secretarias de Educação precisam ter capacidade para avaliar ferramentas, analisar contratos, proteger dados dos estudantes e acompanhar os resultados obtidos.
Sem essa estrutura, existe o risco de decisões pedagógicas serem determinadas pelas soluções oferecidas pelas empresas de tecnologia, em vez de partirem das necessidades de cada comunidade escolar.
Aluno também precisa aprender a usar IA de forma crítica
O debate não envolve apenas professores e gestores. Os estudantes também precisam desenvolver competências para compreender como os sistemas de inteligência artificial funcionam e identificar seus limites.
Isso inclui saber verificar informações, comparar fontes, reconhecer possíveis vieses e compreender que uma resposta gerada por IA não é necessariamente verdadeira.
Os dados do PISA 2025 mostram que 51,2% dos estudantes brasileiros disseram ter aprendido em sala de aula a avaliar informações geradas por inteligência artificial. O índice, porém, ficou abaixo da média de 62,6% registrada nos países da OCDE.
A própria OCDE aponta que a tecnologia e a IA podem contribuir para a aprendizagem quando utilizadas de maneira intencional, mas não devem substituir atenção, esforço e compreensão por parte dos estudantes.
Como evitar que a tecnologia aumente as diferenças?
Para que a inteligência artificial não se transforme em mais um fator de desigualdade, o desafio é garantir condições mínimas para que diferentes redes de ensino possam utilizá-la com objetivos pedagógicos claros.
Isso envolve:
- ampliar o acesso à internet e a equipamentos adequados;
- oferecer formação continuada aos professores;
- preparar equipes técnicas das secretarias de Educação;
- estabelecer regras de proteção de dados de crianças e adolescentes;
- avaliar ferramentas antes de adotá-las em larga escala;
- ensinar os estudantes a verificar informações produzidas por IA;
- acompanhar os resultados pedagógicos do uso dessas tecnologias.
A questão, portanto, não é simplesmente colocar ou retirar a inteligência artificial da sala de aula. O desafio está em criar condições para que o acesso à tecnologia seja acompanhado de conhecimento, orientação e infraestrutura.
Em um país marcado por diferenças socioeconômicas no desempenho escolar, a forma como a IA será incorporada às redes de ensino pode ser tão importante quanto a própria tecnologia.

