Publicidade
divisão no mar de Santos
Reprodução redes sociais
Getting your Trinity Audio player ready...

Baixada Santista – Divisão no mar de Santos: Uma faixa bem marcada dividindo as águas chamou a atenção de quem viu imagens aéreas do litoral de Santos, em São Paulo. O registro feito por um drone mostra uma área do mar com tonalidade mais escura próxima à praia, enquanto, mais distante da costa, a água aparenta estar mais clara e transparente.

O fenômeno foi registrado nas proximidades do Canal 6, na Ponta da Praia, e rapidamente despertou a curiosidade de moradores e turistas nas redes sociais. Mas o que explica essa espécie de “divisão” no mar de Santos?

Segundo a Prefeitura de Santos, a diferença de coloração está relacionada ao encontro entre a água do estuário e a água do mar aberto. A diferença de densidade, a quantidade de matéria orgânica presente na água e a ação das correntes podem criar uma fronteira visível entre as massas de água.

Por que o mar de Santos ficou com duas cores?

A explicação está na origem e nas características diferentes das águas que se encontram na região.

De acordo com Renan Ribeiro, especialista em hidrodinâmica costeira e doutor em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), a água de aparência mais escura costuma chegar à região pelo estuário, por São Vicente ou pelo canal do Porto de Santos.

Essa água apresenta menor salinidade e, segundo o especialista, também costuma carregar uma concentração maior de matéria orgânica. Já a água da Baía de Santos tende a ser mais salgada, mais densa e transparente, com menor concentração de matéria orgânica.

Quando essas massas de água entram em contato, suas características diferentes podem fazer com que elas permaneçam visualmente separadas por algum tempo.

“Fica esse contraste dessas duas águas de densidades diferentes e elas não se misturam tão facilmente, demora um pouco mais para se misturar e ficou bem visível [no vídeo]”, explicou Ribeiro.

Isso não significa que as águas estejam permanentemente separadas. Elas continuam se misturando, mas o processo pode ser mais lento e ficar especialmente evidente dependendo das condições do mar.

Fenômeno em Santos é igual ao Encontro das Águas?

A Prefeitura de Santos comparou o fenômeno ao famoso Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, em Manaus, no Amazonas.

A comparação faz sentido em relação ao princípio de massas de água com características diferentes que entram em contato e apresentam uma separação visual. No caso de Santos, porém, trata-se do encontro entre águas do estuário e do mar aberto, enquanto, na Amazônia, são dois grandes rios que se encontram.

No Encontro das Águas, as características distintas dos rios ajudam a manter uma separação perceptível durante determinado trecho. Em Santos, diferenças de salinidade, densidade, matéria orgânica, correntes e condições oceanográficas contribuem para o contraste observado.

Portanto, não é que o mar tenha literalmente “parado de se misturar”. A aparência de uma linha divisória é resultado temporário da dinâmica da água.

Maré e chuva também podem influenciar a aparência

As condições oceanográficas ajudam a explicar por que o contraste pode ficar mais ou menos evidente.

Segundo Renan Ribeiro, fatores como maré e chuva influenciam o comportamento dessas águas. A quantidade de água que chega ao estuário e a dinâmica das correntes podem alterar a forma como as diferentes massas se encontram e se dispersam.

A própria Prefeitura de Santos monitora as condições do estuário e da Baía de Santos, que sofrem influência de marés, chuvas, ventos e sistemas meteorológicos. Boletins municipais e do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília mostram que a elevação da maré pode afetar de maneira diferente a região da orla e o interior do estuário.

Por isso, uma imagem semelhante pode não aparecer exatamente da mesma maneira em outro dia ou horário.

Imagem feita por drone revelou contraste que quase não aparecia da areia

O registro foi feito pelo piloto de drone Anderson Coelho, que produz imagens para a página “Aqui TU vê de cima”.

Segundo ele, o voo aconteceu por volta das 16h49 de segunda-feira (3), nas proximidades do Canal 6. Durante o sobrevoo pela Ponta da Praia, o piloto percebeu uma grande diferença de tonalidade que se estendia pela orla e decidiu registrar as imagens.

Para quem estava na praia, entretanto, a divisão era muito menos evidente.

É justamente a perspectiva aérea que tornou o fenômeno tão chamativo. Vista de cima, a transição entre as águas aparece como uma faixa extensa e bem delimitada. Do nível da areia, a diferença de tonalidade pode ser difícil de identificar.

As imagens provocaram diferentes teorias entre internautas, que levantaram hipóteses sobre temperatura, densidade e até comparações com o Encontro das Águas de Manaus.

A água escura significa que há poluição?

A diferença de cor, por si só, não permite concluir que exista poluição.

Neste caso específico, a explicação apresentada pela Prefeitura de Santos e pelo especialista consultado está relacionada à dinâmica natural entre águas do estuário e do mar aberto, incluindo diferenças de densidade e concentração de matéria orgânica.

Isso não significa, porém, que a coloração da água possa ser usada para determinar se uma praia está própria ou imprópria para banho. A qualidade da água é avaliada por análises específicas dos órgãos ambientais competentes.

Esse cuidado é importante porque a aparência da água pode mudar por diferentes razões. Em março de 2025, por exemplo, uma mancha verde que apareceu no mar de Santos levou a Prefeitura a solicitar uma vistoria e a acionar órgãos responsáveis pela investigação de possível alteração na água.

Assim, uma mudança visual não deve ser automaticamente interpretada nem como sinal de contaminação nem como garantia de que a água esteja adequada para banho.

Um fenômeno natural que ficou mais impressionante visto do alto

A divisão no mar de Santos é um exemplo de como fenômenos que normalmente passam despercebidos podem ganhar outra dimensão quando observados de uma perspectiva aérea.

A combinação entre águas com características diferentes, correntes, maré, chuva e condições oceanográficas criou uma separação visual temporária que chamou a atenção justamente por lembrar um dos fenômenos naturais mais conhecidos do Brasil.

No mar, entretanto, essa fronteira não é fixa. As águas continuam interagindo e se misturando, e a aparência registrada pelo drone pode mudar conforme as condições ambientais.

O resultado foi uma cena incomum para quem observa a costa do nível da praia, mas explicável pela própria dinâmica das águas na região de Santos.

Publicidade

Destaques ISN

Relacionadas

Menu