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A beleza do outono dos olímpicos
Nesta quarta-feira (01/07/2026), tive a sorte, a honra e o prazer de acompanhar uma celebração tão simples quanto marcante e inesquecível. E repito: marcante e inesquecível justamente pelo tanto de simplicidade embutida nela.
Era a comemoração do aniversário de 86 anos, no dia anterior, de um canceriano chamado Koyu Iha.
Como eu disse antes, estava ali por sorte. A celebração acontecia dentro de um grupo que se reúne todas as segundas-feiras no final da tarde num restaurante tradicional da cidade de Santos chamado Olímpia. Não faço parte desse grupo. Mas a Patrícia, sim. Eu estava ali como parceiro dela. Um namorado, Um consorte. Um namorado com sorte.
O grupo tem vários octogenários, septuagenários, “sexygenários” e a Patricia, recém-50+, é uma espécie de caçula. A linha que costura a coesão deles é uma militância política histórica. Quase todos originários de uma esquerda mais radical empurrados pela vivência para um posicionamento hoje eclipsado pela polarização: a centro-esquerda, a social-democracia. Eclipsado no Brasil, mas pulsando forte e bem-sucedido em vários países da Europa ainda não-contaminados pela radicalização esquerda / direita.
A saudação ao aniversariante, simples e emocionante, foi feita por Nelson Fabiano, deputado estadual com mandato cassado durante a ditadura militar, reconduzido pelas urnas à Assembleia de SP depois da redemocratização do país, e componente do primeiro escalão da gestão de Mário Covas na Prefeitura de SP.
Ele lembrou que a carreira política dele começou como vereador em Santos junto com a de Koyu como vereador em São Vicente. Lutaram juntos contra a ditadura. Rememorou os mandatos de Koyu como deputado federal. E ressaltou um gesto do aniversariante, um gesto impensável nesses dias de apego ao poder a qualquer custo.
Em 1976, Koyu se elegeu prefeito de São Vicente. O mandato seria de 1977 a 1980. Mas em 80 foi prorrogado para todos os prefeitos do Brasil até o final de 82. Mais dois anos de mandato para desvincular as eleições de vereadores e prefeitos das de senadores, deputados, governadores e presidente, como até hoje. Para todos os prefeitos do Brasil, mas não para Koyu Iha. Ele teve a grandeza e o desprendimento de renunciar por não aceitar um período de mandato que não tinha sido conquistado nas urnas.
No agradecimento pela celebração e pelo lindo presente que ganhou do grupo, uma cerejeira bonsai, o ex-prefeito e ex-deputado disse que a ação política deve ser permanente, de todos, não-limitada no tempo ou pela idade, nem restrita às disputas eleitorais. E que o centro de poder hoje está no parlamento. Que é lá que as mudanças podem ser construídas.
Naquela mesa estavam apenas homens e mulheres temperados pelo tempo com uma dignidade que transparece na simplicidade das falas, dos procedimentos, da maneira de vestir, nas rugas e no embranquecimento ou ausência de cabelos. Mas cada um deles cercado pelo carinho e pelo respeito dos amigos.
No grupo dos “olímpicos” não há o mínimo sinal de enriquecimento ilícito com a passagem por cargos políticos. Nem aquelas auto-mutilações plásticas que caracterizam a luta artificial e inglória contra os sinais da passagem dos anos.
E aí fiquei pensando que naquela mesma semana a Polícia Federal tinha feito uma operação de investigação do deputado Sóstenes Cavalcanti, líder do PL na Câmara por desvios de recursos federais por meio de emendas secretas. Nas semanas anteriores os alvos de investigações de ligações com o escândalo Vorcaro / Master foram os senadores Jaques Wagner (PT) e Ciro Nogueira (PP).
Fiquei lembrando também que naquele mesmo dia Gilberto Kassab, com o rosto deformado pelo excesso de maquiagem e com os cabelos pretinhos de tintura tinha se auto-ungido pré-candidato à vice-presidência da República.
Que diferença !!!
Fiquei pensando também que há uma urgência no ar: a de garimpar na geração atual de candidatos a deputado e senador os futuros “olímpicos”. Precisamos reacender no Congresso a chama de esperança que as emendas secretas, as parcerias com as fraudes e as tinturas de cabelos, frascos de botox e bisturis de cirurgias plásticas apagaram. É lá, realmente, que as mudanças que o país deseja podem ser construídas.
