Abalo sísmico em Juiz de Fora não causou deslizamentos
Reprodução do youtube
Getting your Trinity Audio player ready...

Juiz de Fora – Após a tragédia provocada pelas chuvas em fevereiro, que deixou 66 mortos, uma dúvida passou a circular entre moradores: o abalo sísmico em Juiz de Fora registrado dias antes poderia ter contribuído para os deslizamentos de terra?

Especialistas são diretos: não há relação entre o tremor e os desastres. A explicação aponta para fatores já conhecidos — e mais perigosos — no cenário urbano brasileiro.

Tremor foi de baixa intensidade e sem impacto estrutural

O abalo sísmico em Juiz de Fora teve magnitude 2,1, considerada baixa. De acordo com especialistas do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Juiz de Fora, eventos desse tipo são relativamente comuns no Brasil e não têm força suficiente para causar danos estruturais.

Para efeito de comparação, tremores capazes de provocar deslizamentos costumam ter magnitude próxima de 5 ou superior.

Além disso, segundo os pesquisadores, quando um terremoto causa impacto, ele ocorre de forma imediata, não dias depois. Ou seja, não existe um “efeito tardio” capaz de fragilizar encostas ao longo do tempo.

Chuvas extremas foram o principal fator da tragédia

Se o tremor não foi responsável, o que causou os deslizamentos?

A resposta está nos números. Entre os dias 22 e 28 de fevereiro, Juiz de Fora registrou 316,6 mm de chuva. No total do mês, o acumulado chegou a 763,8 mm, mais de quatro vezes a média histórica de 173 mm.

Esse volume extremo de precipitação provocou:

  • saturação do solo;
  • aumento da instabilidade em encostas;
  • deslizamentos em áreas vulneráveis.

Ocupação de áreas de risco agrava cenário

Outro fator determinante foi a ocupação urbana em regiões suscetíveis a deslizamentos.

Segundo especialistas, os danos se concentram justamente onde há:

  • moradias em encostas íngremes;
  • infraestrutura precária;
  • ausência de planejamento urbano adequado.

Na prática, isso significa que o risco não está apenas na chuva, mas na forma como o território é ocupado.

Tremores são comuns, mas raramente perigosos

Minas Gerais está entre os estados brasileiros com maior número de registros sísmicos, embora a maioria seja de baixa intensidade.

Dados da Rede Sismográfica Brasileira indicam que:

  • há 21 eventos registrados na região da Zona da Mata;
  • Juiz de Fora concentra sete desses registros desde 1986;
  • o maior tremor na região ocorreu em 1992, em Barbacena, com magnitude 3,7.

Mesmo quando percebidos pela população, esses tremores não representam risco significativo.

O que ainda preocupa especialistas

Apesar de o abalo sísmico em Juiz de Fora não ter relação com a tragédia, o alerta permanece, mas por outro motivo.

O solo ainda pode estar:

  • encharcado;
  • instável;
  • suscetível a novos deslizamentos.

Por isso, a principal recomendação é seguir as orientações da Defesa Civil e manter atenção redobrada em áreas de risco.

É possível prever novos tremores?

A previsão de abalos sísmicos com precisão ainda é um desafio científico. Especialistas explicam que seria necessário um monitoramento contínuo com sismógrafos instalados na região.

Mesmo assim, não há indícios de eventos mais fortes no momento.

O que fica de lição

A discussão sobre o abalo sísmico em Juiz de Fora revela algo importante: em meio a tragédias, é comum buscar explicações menos visíveis, como tremores subterrâneos.

Mas, neste caso, a causa é mais direta e conhecida:

  • chuvas extremas;
  • vulnerabilidade urbana;
  • ocupação de áreas de risco.

A pergunta que permanece não é sobre o que aconteceu abaixo da terra, mas sobre o que está sendo construído sobre ela.

Publicidade

Destaques ISN

Relacionadas

Menu