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Economia – O Banco Central terá pela frente um cenário de atenção para decidir os próximos passos da política monetária brasileira. Após reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual na última quarta-feira (5), para 14% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) deixou em aberto a possibilidade de uma pausa no ciclo de cortes na próxima reunião, prevista para setembro.
O corte de agosto foi o quarto consecutivo, mas economistas avaliam que uma série de fatores pode limitar o espaço para novas reduções. Entre eles estão a evolução da inflação, o preço do petróleo em meio aos conflitos no Oriente Médio, os efeitos de eventos climáticos, a situação das contas públicas, o comportamento do câmbio e o ritmo de crescimento da economia.
A ata da última reunião do Copom, prevista para ser divulgada nesta terça-feira (11), deve ajudar a esclarecer quais desses riscos estão pesando mais sobre a avaliação dos diretores do Banco Central.
Petróleo e conflitos no Oriente Médio
Um dos principais pontos de atenção é o comportamento do preço do petróleo diante das tensões no Oriente Médio. Para o economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, uma alta da commodity pode representar um choque de oferta para a economia brasileira.
O aumento do petróleo pode elevar os custos das empresas e reduzir a renda disponível das famílias, ao mesmo tempo em que pressiona a inflação. Esse cenário representa um desafio para o Banco Central, pois combina menor atividade econômica com preços mais elevados.
Mesmo assim, Sichel avalia que ainda existe espaço para mais um corte da Selic em 2026. Para ele, caso os sinais de desaceleração da atividade continuem e a inflação permaneça dentro das expectativas, além de um câmbio relativamente comportado, o BC poderá manter o ciclo de redução dos juros.
Risco climático também entra no radar
Outro fator citado pelos especialistas são as condições climáticas. A economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, Fernanda Guardado, considera que os riscos para a inflação continuam relevantes, especialmente diante da possibilidade de eventos associados ao El Niño afetarem os preços.
Segundo a economista, uma pausa no ciclo de cortes pode ser adequada caso as projeções de inflação permaneçam acima da meta no horizonte considerado pelo Banco Central.
Além dos fatores domésticos, Guardado destaca que as decisões de outros bancos centrais também podem influenciar o cenário brasileiro. Uma eventual elevação dos juros no exterior tende a aumentar a pressão sobre as taxas praticadas em países emergentes.
No caso brasileiro, porém, o nível elevado da própria Selic pode oferecer alguma proteção contra esse movimento.
Câmbio e atividade econômica podem favorecer cortes
Apesar dos riscos, há fatores que podem abrir espaço para novas reduções dos juros. A economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, destaca o comportamento do câmbio como um ponto positivo para a inflação.
A valorização do real observada ao longo do ano ajudou a conter parte da pressão sobre os preços. Caso essa tendência continue, o efeito poderá contribuir para que o Banco Central mantenha espaço para reduzir a Selic gradualmente.
O desempenho da atividade econômica e do mercado de trabalho também será acompanhado. A economia brasileira permaneceu resiliente mesmo com os juros em patamar elevado, enquanto os indicadores de emprego continuam fortes, embora já apresentem sinais de desaceleração.
Para Quartaroli, uma perda gradual de ritmo da economia pode favorecer novos cortes até o fim do ano.
Dívida pública preocupa
As contas públicas são outro elemento importante na decisão do Banco Central. O economista Arnaldo Lima, da Polo Capital, avalia que a estabilização da dívida pública será fundamental para melhorar a confiança do mercado.
A preocupação está relacionada principalmente ao elevado resultado nominal do país, que inclui o impacto dos juros sobre as contas públicas. Uma percepção de deterioração fiscal pode aumentar as expectativas de inflação e dificultar o processo de redução da Selic.
Lima também defende medidas que aumentem a produtividade da economia. Segundo ele, uma combinação de inflação controlada e crescimento sustentável depende não apenas da política monetária, mas também de avanços estruturais na economia.
Eleições podem aumentar as incertezas
O calendário eleitoral também aparece entre os fatores que podem influenciar o cenário econômico nos próximos meses. Com as eleições de 2026 se aproximando, decisões e propostas dos candidatos podem afetar as expectativas do mercado sobre as contas públicas e a condução da política econômica.
Apesar das incertezas, parte dos especialistas ainda trabalha com a possibilidade de novos cortes. Sichel, por exemplo, projeta que a Selic termine 2026 em 13,75% ao ano.
O cenário, porém, dependerá da combinação entre inflação, atividade econômica, câmbio, política fiscal e fatores externos. Com a taxa ainda em 14%, o Banco Central terá de equilibrar o combate à inflação com a necessidade de evitar que juros elevados prejudiquem excessivamente o crescimento econômico.
A próxima reunião do Copom deverá mostrar se os atuais riscos serão suficientes para interromper temporariamente o ciclo de cortes ou se a autoridade monetária continuará reduzindo a Selic de forma gradual.

