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 Interditar Trump ou não: eis a questão

 

 

Na defesa dos obsessivos, o genial Nelson Rodrigues escreveu que “Não há santo, herói, gênio ou pulha sem ideias fixas”. Pulha era uma palavra usada no século passado para definir uma pessoa canalha, desprezível, sem caráter.

Donald Trump tem ideias fixas. Em qual das 4 categorias esse obsessivo poderia ser enquadrado: santo, herói, gênio ou pulha?

Num mundo polarizado, é provável que metade das pessoas façam a opção por gênio e a outra metade por uma categoria que o grande Nelson não listou: louco. Na verdade, pelas pesquisas mais recentes nos Estados Unidos, 60% por lunático e 40% por gênio.

As declarações e atitudes de Trump aceitam os dois rótulos.

Na terça (7/4), ele disse que “uma civilização inteira (a persa / iraniana) morrerá esta noite para nunca mais ser recuperada”

A secretária de Imprensa do governo dos Estados Unidos, Karoline Leavitt, classificou a ameaça como “retórica muito dura e estilo de negociar incisivo e que produzem resultados positivos”.

Já o líder democrata (oposição a Trump) no Senado, Chuck Schumer, definiu como a fala de um “lunático desvairado”.

A ameaça de Trump é a de cometimento de crimes. Se ele mandar matar uma civilização inteira, isso inclui mulheres, crianças e idosos. Crime de guerra. Aliás, também seria crime de guerra destruir usinas de produção de energia e pontes, como ele ameaçou um dia antes.

Nesta semana um policial aposentado do Amazonas, Divoney Perasa, 59 anos, ameaçou serenamente a ex-companheira num vídeo que circula nas redes sociais: “vou decapitar você e jogar bola com a cabeça”. É crime e ele está foragido. Será que Mrs Leavitt classificaria a fala desse covardão como “retórica dura e negociação incisiva”?

Trump, no dia anterior, já tinha conciliado o inútil ao desagradável. Ultrapassou a fronteira entre a boa educação – que ele nunca teve – e a chulice e o preconceito:

“Abram a porra do estreito (de Hormuz), seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno”.

A retórica exagerada, curiosamente, lembra o estilo dos adversários muçulmanos. Na quarta-feira ele disse que faria contra o Irã “o ataque maior, melhor e mais forte do que qualquer um jamais viu”. As exigências impossíveis também lembram o estilo árabe / persa de colocar o preço no alto para abrir espaço para a pechincha, a negociação.

A diferença é que essas ameaças provocam o temor do uso de armas nucleares que colocariam em risco a sobrevivência da civilização humana no planeta.

Trump vai completar 80 anos no dia 14 de junho. Silvio Santos, quando cruzou essa barreira dos 80, passou a ser inconveniente na TV que era dele mesmo. Perguntas constrangedoras a crianças. Atitudes sexistas com mulheres. Expressões de machismo e racismo que ele nunca antes tinha demonstrado. O público relevou, perdoou, entendeu que era aquela questão da perda de limites de bom senso e de respeito que muitas vezes é trazida pela idade avançada.

Mas Silvio Santos tinha só uma TV. Microfone e câmera poderosos. Mas que se restringiam à comunicação. Trump não. Tem aquele botão vermelho na mesa. Trump pode detonar uma agressão nuclear sem depender de aprovação do Congresso, dos militares, de ninguém.   

Será que não é chegada a hora de interditar Donald Trump?  

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