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Queridos leitores, já pra quem me acompanha nas redes sociais sabe que esse é um tema que sempre abordo, mas hoje vamos entender essa questão sob a ótica da psicanálise.

Afinal de contas, por que a segurança emocional, tão buscada nos relacionamentos, pode se tornar a maior inimiga da libido? Vamos entender como a psicanálise explica o paradoxo do desejo em relações estáveis.

Esse é o paradoxo mais cruel dos relacionamentos modernos: quanto mais conhecemos, cuidamos e amamos alguém, menos parecemos desejá-lo entre quatro paredes. Para muitos casais, a intimidade emocional, sabe aquela segurança de saber exatamente o que o outro pensa e sente? Pois é, ela acaba funcionando como um extintor de incêndio para a libido.

Essa queixa é comum nos consultórios de terapia: “Nós nos damos super bem, somos melhores amigos, mas o sexo simplesmente sumiu”. Por que a paixão parece exigir um pouco de “perigo” ou distância para sobreviver? Sob o olhar da psicanálise, a resposta é desconcertante: nós só desejamos aquilo que NÃO possuímos totalmente.

O Desejo é Filho da Falta

Para a psicanálise, especialmente na linhagem de Jacques Lacan, o desejo não é uma busca por satisfação plena, mas sim um movimento gerado pela “falta”. Só desejamos o que nos escapa. No início de um namoro, o outro é um território desconhecido, um mistério a ser desvendado. Essa distância cria uma tensão elétrica que alimenta o erotismo.

O problema surge quando o casal atinge a chamada “fusão”. Na busca por segurança, tentamos eliminar qualquer sombra de mistério: contamos tudo, compartilhamos senhas, fazemos tudo juntos e antecipamos cada gesto do parceiro. Ao eliminar a distância, eliminamos o espaço onde o desejo caminha. Quando o outro se torna uma extensão de nós mesmos, o espelho substitui o objeto de desejo.

Sexualidade e Fantasia: O Papel do “Personagem”

O sexo não é apenas biológico; ele é, sobretudo, psíquico. Para que o desejo retorne, é preciso aceitar que, na cama, ninguém é apenas “marido” ou “esposa”. O erotismo exige uma certa dose de egoísmo e de quebra de papéis.

A introdução de fantasias, jogos de cena ou simplesmente a preservação de espaços individuais de mistério ajuda a reintroduzir a alteridade. Quando o homem ou a mulher percebe que o parceiro tem uma vida interior que não lhe pertence, que tem desejos e interesses que ele(a) não controla, o interesse renasce. O “estranhamento” é o combustível da curiosidade sexual.

E Como Resgatar a Chama?

A psicanálise não oferece receitas de bolo, mas aponta caminhos de reflexão:

Uma das opções pode ser o que chamamos de menos transparência e mais mistério. Não é necessário (nem saudável) compartilhar 100% da vida. Ter hobbies, amigos e pensamentos próprios mantém você como um “outro” a ser conquistado. Por isso é importante que consigam, ao menos vez ou outra, sair para encontros com amigos como cafeteria, por exemplo.

Não seja mãe ou pai do outro, saia do papel de cuidador, pois o excesso de zelo mata o erotismo. É preciso olhar para o parceiro fora do contexto doméstico — vê-lo brilhando no trabalho ou interagindo socialmente ajuda a recuperar a imagem de alguém desejável pelo mundo, e não apenas pelo conforto do lar.

Dê espaço à fantasia, isso mesmo, é preciso entender que o espaço do sexo é um palco de teatro onde o “proibido” e o lúdico têm lugar, sem que isso fira o amor e o respeito construídos no dia a dia.

Claro que Amar e Desejar são verbos que conjugam ações e tempos diferentes. O amor busca a permanência; já o desejo, busca a novidade. O segredo dos casais duradouros não é a busca por uma fusão total, mas a capacidade de se perderem um do outro de vez em quando, apenas para terem o prazer de se reencontrarem como desconhecidos.

Pensem nisso.

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