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A receita do Bolívar e da Maria para 2026
Em setembro de 1991, nas turbulências do final do desgoverno Collor, o escritor Otto Lara Rezende publicou a crônica O Pastel e a Crise. Uma autêntica joia, selecionada no livro As Cem Melhores Crônicas Brasileiras.
Começa assim: “Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar ne depressão, está na hora de ler. A partir de certa altura, bom mesmo é reler. Reler sobretudo o que nunca se leu.”
34 anos depois, neste comecinho de 2026, alguém poderia escrever: “Quando a polarização política extrapola o limite da chatice e os argumentos se tornam tão rasos que não vale mais a pena conversar com alguns amigos, está na hora de olhar para pessoas bem-resolvidas.”
O próprio Otto, no texto da crônica, lembra da sabedoria natural do amigo Rubem Braga:
“Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e diagnósticos, o Rubem estava de olho nas frutas da estação. No horizonte borrascoso, não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar para o rodapé, pois o sabor do Brasil também está nas coisas do rés do chão.”
É dessa sabedoria natural que algumas pessoas estão precisando com urgência urgentíssima. Que sabor tem a vida de quem passa o dia garimpando notícias ruins para postar nas redes sociais e xingar o Lula? Ou de quem fica se deleitando com os percalços judiciais ou as enfermidades do Bolsonaro?
Assim, pensei em desviar o olhar pra gente que faz a vida valer a pena. E resolvi trazer aqui duas pessoas completamente diferentes, mas que atropelaram a barreira dos 90 com uma pegada de jovialidade e otimismo que dá zero importância para as arengas e notícias falsas das redes sociais.
Bolívar, como um bom ariano de 1933, tem como marcas desse signo de fogo, a ação e a iniciativa, mais do que o planejamento. Assim, celebrou os 92 em março de 2025, com autonomia, lucidez e alegria. Pedala, dirige e chegou até aí com anos e anos de exercício natural. A bicicleta e as caminhadas, como a pesca, traduzem hábitos e não obrigação. Bolivar foi casado por mais de 50 anos, está viúvo há dez e criou 5 filhos. Os vínculos afetivos sólidos constituem o pilar de sustentação dessa vida bem-sucedida: ele se sente amado, respeitado e pertencente.
Maria chegou aos 94 em maio. Como uma legítima geminiana, tem pensamento ágil, adora viajar, conversar e contar histórias e piadas. Conheceu boa parte do mundo com a irmã, Luísa, e se emociona com a lembrança dela. Curiosa, bem-humorada, competitiva, conserva a pegada nos jogos de baralho e em 2025 adotou uma vira-lata, a Faísca, que não sai do lado dela. Se as pessoas estão longe, Maria não se aperta: é pra isso que existe o telefone.
Maria não casou e não teve filhos. Mas recentemente adotou como neta uma jornalista de 28 anos da Globo News, enteada de um sobrinho dela.
Em 2026, que tal valorizar e tornar sólidos os vínculos afetivos e a movimentação natural do Bolívar e a abertura para o novo, seja uma cachorra, seja uma amiga “neta” 66 anos mais nova, da Maria? Que tal pedalar livremente (com cuidado) e conversar mais, com mais prazer, contar piadas?
E a obsessão por pseudo-crises inventadas, a exasperação pelo pessimismo exagerado, o ódio por algum modelo de sandália ou por quem tem opinião política diferente?
Isso aí a gente deixa para esses chatos das redes sociais.
