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Bendito seja o fim da escala 6 x 1
Já trabalhei na escala 6 x 1. Muito tempo. Foi no começo da minha carreira como engenheiro civil. Sei como é.
Talvez por isso tenha acompanhado com tanto interesse a discussão sobre a proposta de fim dessa escala.
Sempre me pareceu uma questão de avanço civilizatório. Uma folga a mais na semana faz bem pras pessoas. A produtividade delas também aumenta, mostram as pesquisas. Naquelas 40 horas da 5 x 2 vão produzir mais do que nas 44 da 6 x 1.
A questão, é claro, não se resume a isso. Uma empresa que opera ou funciona 6 ou 7 dias na semana e tem só um ou dois funcionários, até mesmo as que têm até 10 – 12, vão ter de buscar uma solução: rodízio, contratação, hora-extra… Vai encarecer o custo da operação.
Nesta semana fiz algumas contas. Engenheiro gosta de contabilizar. Vamos a elas.
Quatro horas representam 9% a menos das 44. Grosso modo, é isso que vai incidir a mais no custo da mão de obra. Lógico que existem casos diferenciados. Por isso o “grosso modo”. Trata-se de uma referência. Pode ser 10% das 40 horas remanescentes, também, porque não vai haver redução de salário.
A mão de obra é um dos custos da produção ou dos serviços. Na alimentação – restaurantes, lanchonetes – representa cerca de 30% do total. O aumento no custo então seria de 9% de uma parcela de 30%. A refeição e o sanduíche sairiam 2,7% mais caros. Já na construção civil a incidência do trabalhador sobre o custo final bate perto de 44%. Os 9% incidiriam sobre esses 44. O apartamento fica 3,96% mais caro.
Quando a escravidão foi abolida, o aumento proporcional do custo da produção e dos serviços foi muito maior. Em alguns casos o trabalho custava quase zero. Era só o galpão da senzala, a palha para dormir e o angu da ração. Passou da noite do 13 de maio para a manhã do dia 14, em 1888, a constituir 20 – 30% do valor daquela produção ou daquele serviço, E mesmo assim o Brasil do final do século 19 não quebrou.
Não quebrou.
Agora o aumento é de menos de 3%. Ou menos de 4%.
Escrevo isso por causa de uma linda reportagem do jornalista Vítor Tavares do BBC News: “Mães solo celebram fim da escala 6 x1”.
A reportagem esquece os números. Humaniza as mulheres do título. As beneficiadas. São duas personagens. E eu duvido que você leia e não sinta os olhos marejados.
Luciana, 36, da cidade do Rio de Janeiro, duas filhas pequenas e um adolescente, diz assim:
“Vai mudar muita coisa. Vou conseguir descansar, resolver coisas da minha vida, até fazer um extra, se conseguir. Estou vendo a vida dos meus filhos passar, não consigo ir em festa do Dia das Mães, junina, nada,”
Pra ela esse dia a menos de trabalho também significa uma hora e meia a menos no transporte coletivo na ida e outro tanto na volta entre Realengo e Campo Grande.
Fabiane, de 50 anos, da cidade de São Paulo, já tem filhos grandes. Mas eles eram pequenos durante uma parte dos 20 anos em que ela trabalhou na 6 x 1.
Ela comemora pelas mães jovens:
“A relação com os meus filhos acabou marcada pelas mágoas que a minha ausência deixou: me dói muito saber que o tempo que eu tinha era pouco para eles. Que sentiam minha falta. Não acompanhei eles aprendendo a andar, não levei no primeiro dia da escola.”
Fabiane também gastava muito tempo no transporte coletivo nessa época: duas horas na ida e outras duas na volta entre Sapopemba e Barra Funda.
São 14,8 milhões de trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, com registro na carteira, na escala 6 x 1.
Quantos será que estão vendo a vida dos filhos passar como a Luciana?
Quantos será que vão ter a relação com os filhos marcada pelas mágoas da ausência, como a Fabiane?
Bendito seja o fim da escala 6 x 1. Que ela descanse em paz.
