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Por Odair Dias Filho
A história da diplomacia brasileira é, em larga medida, a história da preservação de um estamento burocrático e aristocrático. Por mais de um século, os corredores do Palácio Itamaraty funcionaram como uma cidadela de exclusividade social, regional e racial. Essa trajetória secular, contudo, registrou uma fissura sem precedentes: a aprovação da jovem goiana Helen Jaine Gomes Borgens, de 25 anos, a primeira mulher e pessoa quilombola a ingressar na carreira diplomática no Brasil.
Nascida e criada na Comunidade Quilombola do Retiro, no município de Simolândia, no nordeste de Goiás, a trajetória de Helen desmonta a mística de que o recrutamento de Estado no Brasil se pauta exclusivamente pela meritocracia neutra. Formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), a nova diplomata enfrentou uma rotina de estudos solitária em sua comunidade de origem. Sem recursos para custear os preparatórios privados de alto custo das grandes capitais, valeu-se de simulados impressos e estudo autônomo para superar as rigorosas fases do Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
A conquista de Helen não é um fato isolado, mas a expressão direta de transformações estruturais nas políticas de ação afirmativa do país.
Do estamento aristocrático ao imperativo da representatividade
Para compreender a dimensão histórica desse ingresso, é preciso examinar a sociologia do corpo diplomático brasileiro. Pesquisas sociográficas, como os levantamentos desenvolvidos pela Associação Diplomática Brasileira (ADB) em parceria com pesquisadores independentes, revelam que a diplomacia nacional nunca foi apenas uma carreira de elite executiva ou oligárquica; estruturou-se como uma autêntica corporação aristocrática.
Os dados estatísticos do Itamaraty e de estudos acadêmicos sobre a formação dos diplomatas expõem esse contorno:
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Raça e Cor: Brancos representam historicamente entre 85% e 90% do quadro ativo do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e até 98% das posições de cúpula (Embaixadores e Ministros de Primeira Classe). Até a consolidação das políticas afirmativas, estimava-se que menos de 0,1% dos diplomatas formados pelo Instituto Rio Branco eram pretos ou pardos.
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Origem Socioeconômica: Cerca de 66% dos pais e mais de 70% das mães dos diplomatas possuem ensino superior completo — uma estatística impressionante no contexto brasileiro do século XX, quando menos de 1% da população geral tinha acesso à universidade. Além disso, mais de 80% das famílias dos aprovados possuíam imóvel próprio e ampla estabilidade financeira durante o período de preparação.
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Endogamia e Linhagem: A carreira consolidou uma forte tradição de “famílias diplomáticas”. Cerca de 29% dos diplomatas declaram possuir ou ter tido parentes na carreira (pais, tios, cônjuges), índice que ultrapassa 40% entre as mulheres diplomáticas aposentadas. Sobrenomes tradicionais atravessaram gerações ocupando postos estratégicos na política externa.
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Concentração Geográfica: O eixo Rio-São Paulo e o Distrito Federal concentraram historicamente mais de dois terços dos ingressantes na carreira, relegando o Norte, o Nordeste e as populações do interior do país a uma presença marginal.
As mudanças nos editais e o papel de Celso Amorim e Lula
A quebra dessa homogeneidade aristocrática começou a ser desenhada nas duas últimas décadas. Um marco decisivo ocorreu durante a gestão do embaixador Celso Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2002/2003, Amorim impulsionou a criação do Programa de Ação Afirmativa (PAA) do Instituto Rio Branco. O programa passou a conceder bolsas de estudo e auxílio financeiro a candidatos negros para custear a preparação para o CACD, sob a premissa diplomática de que a política externa do Brasil precisava espelhar a diversidade étnica e cultural de seu povo para exercer autoridade moral no cenário internacional multipolar.
O passo definitivo para a conquista de Helen Borgens ocorreu com a promulgação da Lei nº 15.142/2025, sancionada pelo presidente Lula. A nova legislação atualizou a política de cotas no serviço público federal:
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Elevou a reserva de vagas em concursos federais de 20% para 30%.
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Estabeleceu, de forma inédita na história do funcionalismo público federal, a reserva direta de vagas para povos indígenas e comunidades quilombolas.
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Promoveu mudanças operacionais nos editaid, como o fim da “cláusula de barreira” intermediária para cotistas e a concorrência simultânea, assegurando que o candidato aprovado na ampla concorrência libere a vaga reservada para o próximo cotista da lista.
Foi no primeiro edital do CACD realizado sob a égide da Lei nº 15.142/2025 que Helen conquistou a vaga destinada a quilombolas, iniciando sua trajetória no Curso de Formação do Instituto Rio Branco, em Brasília.
Um novo capítulo para a diplomacia nacional
O ingresso de uma jovem mulher, oriunda de um quilombo no interior de Goiás, no curso de formação de Terceiros-Secretários não altera do dia para a noite a estrutura centenária do Itamaraty. No entanto, estabelece um precedente político e conceitual irreversível.
Ao se preparar para representar o Brasil no exterior, Helen Borgens carrega a vivência de um país que historicamente permaneceu do lado de fora dos palácios de decisão. Sua presença no Instituto Rio Branco sinaliza que a política externa brasileira, para ser verdadeiramente nacional, precisa ser tão plural, diversa e complexa quanto a própria sociedade que ela representa.

