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Juiz de Fora – Em Juiz de Fora, as mulheres representam mais da metade do eleitorado e chegam às Eleições 2026 com um peso importante na definição dos resultados. Dos 394.921 eleitores aptos a votar no município, 215.859 são mulheres, o equivalente a 54,6% do eleitorado, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A diferença é de quase 37 mil eleitoras em relação aos homens. Além de serem maioria, elas apresentam uma proporção maior de eleitores que iniciaram ou concluíram o ensino superior.
O cenário reforça uma tendência que vem sendo observada na cidade há décadas. Desde 1989, as mulheres representam a maior parcela do eleitorado de Juiz de Fora.
Eleitorado feminino cresce há décadas
A participação das mulheres nas urnas não é uma novidade no município. Em 1989, elas já representavam 52,3% dos eleitores, com 123.201 eleitoras registradas.
Em 2026, a participação chegou a 54,6%. Para o historiador político Fernando Perlatto, diretor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o eleitorado feminino ganhou importância nas disputas eleitorais.
“O eleitorado feminino nunca foi tão importante quanto agora. As mulheres têm decidido as eleições.”
O especialista também destaca que o aumento da participação feminina no processo político ocorreu paralelamente à criação de mecanismos para ampliar a presença das mulheres na política institucional.
Mulheres têm maior presença no ensino superior
Além de serem maioria entre os eleitores de Juiz de Fora, as mulheres também apresentam maior proporção de escolaridade superior.
Entre as eleitoras, 29,4% iniciaram pelo menos uma graduação. Entre os homens, o percentual é de 25,8%.
Quando considerados apenas os eleitores que concluíram o ensino superior e possuem diploma de graduação, a diferença permanece: 22,54% das mulheres têm essa formação, contra 18,35% dos homens.
Para Moacir de Freitas Júnior, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o perfil do eleitorado da cidade também passa por mudanças relacionadas à idade e à escolaridade.
Segundo ele, o eleitorado está mais concentrado entre mulheres de 50 a 60 anos, com maior nível de escolaridade.
Por que o voto feminino é estratégico?
Com mais de metade dos eleitores da cidade, as mulheres formam um grupo numeroso e diverso. Para a socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, candidatos precisam compreender as questões que afetam a vida cotidiana das eleitoras.
Entre os temas apontados pela especialista estão:
- acesso a creches;
- escolas em período integral;
- transporte público;
- atendimento de saúde;
- violência doméstica;
- desigualdade salarial;
- políticas de cuidado;
- apoio às famílias.
A chamada economia do cuidado também ganha espaço nessa discussão. O conceito envolve atividades relacionadas ao cuidado de crianças, idosos, pessoas doentes e outros familiares, responsabilidades que ainda recaem de maneira desproporcional sobre as mulheres.
“Facilita a vida das mulheres? Elas conseguem trabalhar melhor? Conseguem ter com quem deixar os filhos? Conseguem melhorar de vida? Essas questões fazem diferença na hora da avaliação política”, explicou Alecilda.
Assim, o comportamento eleitoral feminino não deve ser analisado apenas pela quantidade de eleitoras, mas também pelas condições concretas que influenciam suas escolhas.
Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda são minoria no poder
A predominância feminina no eleitorado não se traduz automaticamente em uma participação proporcional nos cargos políticos.
Juiz de Fora elegeu sua primeira mulher para a Prefeitura em 2020, quando Margarida Salomão foi escolhida para comandar o município. Ainda assim, a representação feminina nos espaços de poder permanece inferior à participação das mulheres entre os eleitores.
Para Alecilda Oliveira, essa diferença cria um descompasso entre quem participa majoritariamente das eleições e quem ocupa os cargos resultantes delas.
“Existe um déficit de legitimidade democrática nisso. Um desequilíbrio entre quem vota e quem exerce os mandatos.”
O cenário também ajuda a explicar por que a presença feminina nas candidaturas e as propostas voltadas às mulheres podem ganhar relevância durante a campanha.
Não existe um único voto feminino
Apesar do peso eleitoral, as mulheres não formam um grupo politicamente homogêneo.
As eleitoras podem ter posições diferentes sobre economia, costumes, segurança, saúde, educação e outros temas. Há mulheres identificadas com pautas progressistas e outras alinhadas a posições conservadoras.
Por isso, a simples presença de uma mulher como candidata não significa que ela terá automaticamente o apoio da maioria das eleitoras.
“Eleger mulheres não significa necessariamente eleger mulheres que defendam pautas das mulheres. Existem posicionamentos políticos diferentes dentro do próprio eleitorado feminino”, afirmou Alecilda Oliveira.
A diversidade de opiniões torna a tentativa de tratar o eleitorado feminino como um bloco único uma simplificação do cenário eleitoral.
Direito ao voto feminino completa mais de nove décadas
O voto feminino foi reconhecido no Brasil pelo Código Eleitoral de 1932 e consolidado na Constituição de 1934.
Mais de nove décadas depois, a participação das mulheres nas eleições está consolidada como parte fundamental da democracia brasileira. Ao mesmo tempo, discussões surgidas em comunidades virtuais questionam a legitimidade do voto feminino.
Grupos associados à chamada manosfera, ou machosfera, e correntes conhecidas como red pill passaram a defender, em diferentes contextos, posições contrárias à participação política das mulheres.
Esses movimentos são formados por comunidades diversas, mas algumas delas disseminam discursos antifeministas e defendem papéis tradicionais de gênero. A presença desse tipo de conteúdo nas redes sociais reacende debates sobre igualdade política e participação feminina.
Para Moacir de Freitas Júnior, discursos que questionam o direito das mulheres de participar da política precisam ser observados diante do impacto que podem ter no debate público.
“Tem crescido movimentos de violência simbólica e política contra as mulheres, praticadas por movimentos denominados de ‘red pill’.”
O que os números dizem sobre as Eleições 2026?
Os dados do eleitorado de Juiz de Fora mostram três características importantes: as mulheres são maioria, têm maior presença proporcional entre os eleitores com ensino superior e participam de um eleitorado que vem mudando ao longo das décadas.
Isso coloca as eleitoras no centro das estratégias de candidatos que disputam votos na cidade. Mas os números também indicam que não basta olhar para o eleitorado feminino como um grupo único.
As demandas são variadas e atravessadas por idade, escolaridade, situação familiar, renda e posicionamento político. Para os candidatos, compreender essa diversidade pode ser tão importante quanto reconhecer o tamanho desse eleitorado.
Nas urnas, portanto, a questão não é apenas quantas mulheres votarão, mas quais problemas elas consideram prioritários e quais propostas conseguem responder às suas necessidades.

