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Política – A relação entre Brasil e EUA atravessa um período de forte tensão política e diplomática. As divergências entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump vão além da disputa comercial envolvendo as tarifas impostas por Washington e refletem diferenças ideológicas e estratégicas entre os dois países.
Em análise publicada nesta terça-feira (4), o jornalista William Waack avalia que o confronto entre Brasília e Washington já vinha sendo construído antes do segundo mandato de Trump e ganhou novos contornos com a atual política externa americana.
Um dos episódios mais recentes citados é a decisão de Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington. Para Waack, a medida representa uma demonstração significativa de hostilidade diplomática, embora esteja inserida em um cenário de deterioração das relações entre os dois governos.
Conflito entre Lula e Trump vai além do tarifaço
A disputa comercial é um dos pontos mais visíveis da crise entre Brasil e Estados Unidos. O país está entre os alvos da política tarifária adotada pelo governo Trump, mas, segundo a análise, as divergências entre os dois governos não podem ser explicadas apenas pelas tarifas.
O conflito também envolve questões políticas e ideológicas.
De um lado, Waack relaciona a postura do governo Lula a uma trajetória política historicamente marcada por críticas aos Estados Unidos. Do outro, aponta que a administração Trump demonstra oposição ao governo brasileiro em razão de suas próprias posições ideológicas e de sua aproximação com setores ligados ao bolsonarismo.
Nesse cenário, a relação bilateral passou a ser influenciada também pela política interna dos dois países.
China e dólar ampliam as divergências entre os países
A disputa entre Brasil e Estados Unidos ocorre ainda em meio a uma competição internacional mais ampla.
A China ocupa posição central na estratégia americana, especialmente diante da disputa por influência econômica e geopolítica. Para Washington, a relação dos países do continente com Pequim e com as instituições financeiras internacionais faz parte de uma discussão mais ampla sobre poder e influência.
Na avaliação de Waack, a política americana para a região também está relacionada ao papel do dólar e à atuação das instituições financeiras dos Estados Unidos.
O cenário coloca o Brasil diante de uma relação delicada com seu tradicional parceiro comercial e estratégico, enquanto o governo brasileiro busca preservar sua autonomia diplomática e ampliar relações com diferentes países e blocos.
Laços militares permanecem apesar da crise diplomática
Em meio à escalada de declarações e medidas políticas, existe uma área da relação bilateral que, segundo a análise, permanece menos exposta ao conflito: a cooperação militar.
Brasil e Estados Unidos mantêm relações históricas entre suas Forças Armadas, com intercâmbios, cooperação e contatos institucionais construídos ao longo de décadas.
Para Waack, esse relacionamento representa uma espécie de canal de continuidade em um momento no qual a relação política e diplomática passa por forte desgaste.
A situação cria uma particularidade: enquanto os governos trocam críticas e adotam medidas que aumentam a tensão bilateral, setores militares dos dois países procuram preservar os canais de relacionamento construídos ao longo do tempo.
Relação entre Brasília e Washington entra em uma fase delicada
A atual crise reúne diferentes interesses e disputas: tarifas comerciais, divergências ideológicas, relações com a China, influência americana na América Latina e questões ligadas à política interna brasileira.
Por isso, reduzir o conflito ao chamado tarifaço pode deixar de fora parte importante da disputa entre os governos Lula e Trump.
Ao mesmo tempo, a manutenção dos contatos entre as Forças Armadas mostra que a deterioração diplomática não necessariamente atinge todas as áreas da relação bilateral com a mesma intensidade.
A cooperação militar aparece, nesse contexto, como um dos poucos espaços em que os dois países ainda conseguem manter canais institucionais enquanto Brasília e Washington atravessam uma das fases mais tensas de suas relações recentes.
A avaliação de que esse vínculo representa uma “última trincheira de normalidade”, porém, é uma interpretação apresentada por William Waack em sua análise, e não uma declaração oficial dos governos brasileiro ou americano.

