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Renato Russo
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Por Odair Dias Filho

Há exatamente três décadas, o Brasil perdia não apenas o líder da Legião Urbana, mas o seu mais inquieto cronista social. Em 11 de outubro de 1996, a partida de Renato Russo, aos 36 anos, silenciou uma das vozes mais contundentes, sensíveis e contracorrente da música popular brasileira. Trinta anos se passaram — o tempo equivalente a uma geração inteira —, e a sensação de vazio deixada por sua ausência não diminuiu; ao contrário, ganhou contornos de uma urgência dolorosa.

Caminhar pelas cidades brasileiras hoje é sentir a falta de alguém que traduzisse a nossa perplexidade. Em tempos de polarização ruidosa, redes sociais inflamadas e certezas absolutas, a figura de Renato faz uma falta quase física. Ele possuía a rara virtude de transformar o caos coletivo e as dores individuais em poesia acolhedora, lembrando-nos de que, acima das ideologias e das trincheiras, existe a nossa própria humanidade.

Do Punk do Aborto Elétrico ao Trovador Solitário

A trajetória que moldou o mito começou na efervescência de Brasília no final dos anos 1970. Formado em Jornalismo e professor de inglês, o jovem Renato Manfredini Júnior devorava de tudo: da filosofia iluminista ao pós-punk britânico, de Camões a Fernando Pessoa, do Clube da Esquina ao punk do Sex Pistols. O próprio nome artístico que adotou era um manifesto de sua erudição — uma homenagem tripla a Jean-Jacques Rousseau, Bertrand Russell e Henri Rousseau.

Da urgência do Aborto Elétrico ao período acústico como “Trovador Solitário”, Renato lapidou sua escrita narrativa até fundar, ao lado de Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos (e mais tarde com a contribuição inicial de Renato Rocha no baixo), a Legião Urbana. A banda transcendeu o rock dos anos 80 para se tornar um verdadeiro patrimônio afetivo da cultura nacional, vendendo dezenas de milhões de discos e preenchendo o imaginário de sucessivas gerações.

O Afeto Sutil da Sua Canção Favorita

Apesar de ser aclamado por hinos de protesto de arena e suítes progressivas complexas como “Metal Contra as Nuvens”, o coração de Renato batia de forma especial por uma composição mais suave e nostálgica. Entre centenas de versos marcantes, ele declarava abertamente que a sua música favorita em toda a discografia da Legião era “Giz”, lançada no álbum O Descobrimento do Brasil (1993).

Fruto de um momento de busca por sobriedade, paz interior e reconciliação com o passado, “Giz” trazia a simplicidade das memórias da infância e a doçura de um abraço maduro:

“Com a cabeça em minhas mãos

Com os olhos nos meus pés

Tentando não chorar

Lembrei que o tempo passa tão depressa

E você nem notou

E o tijolo de construção

O giz e o sinal

Lembrei que o tempo passa tão depressa

A chuva vai caindo e vai lavando

A rua e a solidão…”

Havia ali uma delicadeza transparente. Nos bastidores de gravação, a faixa era carinhosamente chamada de “a música da garrafinha”, pelo som do teclado que imitava um instrumento de brinquedo. Para Renato, “Giz” era o ponto máximo de sua realização lírica.

As Margens e o Lado B: A Densidade de Ser Único

Para além dos grandes clássicos que tocavam nas rádios, o gênio de Renato Russo revelava-se em toda a sua amplitude nas faixas chamadas de “Lado B”. Eram composições onde o artista não temia encarar suas próprias sombras, suas ambiguidades e os dilemas da alma humana.

Exemplo contundente dessa profundidade é a obra-prima “Eu Era um Lobisomem Juvenil”, do álbum As Quatro Estações (1989). Nela, Renato desnudou a angústia da inadequação e o desejo de pertencimento com uma honestidade visceral:

“Sei que às vezes uso

Bocas de outros para dizer

O que preciso

E que meu desgaste é vulnerável

Mas que a minha força é do tamanho

Do que sinto…

Não cometa o mesmo erro que eu

Não procure a resposta em mais ninguém

A resposta está em você…”

Era essa coragem de expor suas vulnerabilidades que fazia o público confiar nele. Renato não falava de um pedestal; falava de igual para igual, de coração para coração.

A Tensão Política Atual: Que Lado Ele Tomaria?

À medida que revisitamos os 30 anos de sua ausência em meio ao cenário político tenso e dividido em que vivemos hoje, surge inevitavelmente a pergunta que paira no ar: se Renato Russo estivesse aqui, de que lado ele estaria?

Aqueles que o acompanharam sabem que ele nunca foi um artista de respostas fáceis ou de adesões cegas a partidos. Renato repudiava o autoritarismo, a demagogia e a instrumentalização da fé e da esperança do povo. Ele enxergava o Brasil com um olhar crítico e humanista, criticando tanto a alienação das massas quanto a hipocrisia das elites. Ele mesmo dizia que “o Brasil não tem povo, tem público”, provocando a sociedade a exercer uma cidadania consciente.

Tentá-lo encaixar nas divisões partidárias de hoje seria apequenar sua memória. De que lado Renato Russo ficaria na tensão atual?

Para tentar entender para onde ele iria, para qual direção apontaria sua bússola ética, não adiantam as especulações ruidosas. A única resposta possível está em voltar a ouvir suas canções. Nas entrelinhas de suas letras, na busca incansável pela virtude, no amor transformador de “Monte Castelo” e na denúncia indignada de “Perfeição”, está o único lado que Renato Russo jamais abandonou: o lado da liberdade, da dignidade humana e do afeto.

Trinta anos depois, o poeta calou-se, mas sua voz continua nos ensinando a atravessar a tempestade. E a saudade, essa sim, continua sendo a prova de que sua música é eterna.

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