O Gênio por Trás da Música
Ennio Morricone (1928–2020) foi mais do que um compositor, foi um arquiteto sonoro do cinema.
Com suas composições, ele transformou a maneira como sentimos e lembramos dos filmes.
Poucos compositores conseguiram imprimir no cinema uma marca tão inconfundível quanto Ennio Morricone (1928–2020).
O maestro italiano, responsável por mais de 500 trilhas sonoras para filmes e séries, transformou a música de cinema em uma arte independente, capaz de dialogar com a narrativa visual e, muitas vezes, até superá-la. Sua genialidade foi reconhecida não apenas pelo público, mas também por cineastas de várias gerações que encontraram em suas composições a alma de suas obras.
As Origens e o Estilo Único
Morricone nasceu em Roma e desde cedo mostrou talento para a música. Formou-se no Conservatório de Santa Cecília, com especialização em trompete, composição e regência. Essa formação clássica, somada à sua curiosidade por experimentar sons não convencionais, moldou seu estilo singular: uma fusão de tradição orquestral com ousadia experimental.
Entre seus elementos característicos estavam:
- Assobios, estalos de chicote e disparos incorporados como instrumentos musicais.
- Uso de coros que variavam entre o dramático e o sublime.
- Instrumentação inusitada, misturando guitarra elétrica, flauta, cravo e percussão tribal.
O Som dos Faroestes
Nos anos 1960, ao lado de Sergio Leone, Morricone reinventou o faroeste no cinema.
Quem nunca assobiou a melodia de Três Homens em Conflito?
Ele transformou sons inusitados, assobios, chicotes, tiros, em música. O resultado? Trilhas que ficaram mais famosas do que muitos diálogos.
Filmes marcantes:
- Por um Punhado de Dólares (1964)
- Por uns Dólares a Mais (1965)
- Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly, 1966)
Neste último, Morricone criou talvez sua trilha mais icônica: um motivo melódico simples, construído com uivos vocais e instrumentos de sopro, que se tornou um símbolo universal do faroeste. A música deixava de ser mero pano de fundo e passava a conduzir a narrativa, estabelecendo ritmo e tensão.
Muito Além do Oeste
Ennio Morricone não se limitou a um gênero. Ele foi o coração de histórias épicas, românticas e dramáticas.
Após o sucesso nos westerns, Morricone ampliou seu repertório e trabalhou com cineastas renomados, entre eles:
- Bernardo Bertolucci – 1900 (1976)
- Brian De Palma – Os Intocáveis (1987)
- Roland Joffé – A Missão (1986)
Em A Missão, a melodia da peça “Gabriel’s Oboe” tornou-se um dos exemplos mais claros de sua capacidade de unir espiritualidade e emoção universal.
Partes do filme “A Missão” foram rodadas no Brasil, especificamente nas Cataratas do Iguaçu.
- Giuseppe Tornatore – com quem estabeleceu uma parceria duradoura.
- Entre os filmes estão: Malena (2000)
- Cinema Paradiso (1988), um dos maiores clássicos do cinema mundial, vencedor do Oscar, sobre a profunda amizade entre um menino e um projecionista de cinema.
Um Maestro Premiado
Apesar do reconhecimento mundial, Ennio Morricone só recebeu seu primeiro Oscar em 2007, pelo conjunto da obra. Nove anos depois, ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora por Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino, que desde jovem era um admirador de seu trabalho.
Além disso, conquistou três Globos de Ouro, dez prêmios David di Donatello, Grammy Awards e inúmeros outros reconhecimentos.
A Influência no Cinema e na Música
A contribuição de Morricone ultrapassa os limites do cinema. Sua forma de compor:
- Redefiniu a função da trilha sonora – não apenas como acompanhamento, mas como linguagem narrativa.
- Inspirou compositores como Hans Zimmer, John Williams e Howard Shore.
- Influenciou até bandas de rock e artistas populares, como Metallica, que adotou sua música The Ecstasy of Gold como introdução em seus shows.
Morricone mostrou que uma trilha podia ser atemporal, gravando-se na memória coletiva mesmo sem a imagem da tela.
Um Legado Eterno
Ennio Morricone deixou um legado que permanece vivo. Sua música não é apenas trilha de filmes; é uma experiência estética própria, capaz de transportar o ouvinte a mundos imaginários. Como poucos, ele demonstrou que o cinema pode ser ouvido, e a música pode ser vista.
“A música não é nunca escrava da imagem. Ela tem sua própria voz e deve dialogar com a história.” dizia Ennio Morricone
Por que Ennio Morricone é inesquecível?
- Elevou a música de cinema à arte independente.
- Criou trilhas que se tornaram parte da cultura pop.
- Mostrou que a música pode contar uma história tão bem quanto as imagens.
Em resumo: Ennio Morricone não apenas compôs músicas para o cinema, ele redefiniu o papel da música no cinema, tornando-se um dos maiores artistas do século XX.
por: Rodney Borges – Diretor Cinema – DoP