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Mundo – Uma onda de protestos em diferentes países europeus tem pressionado governos diante do aumento do custo de vida, das dificuldades de acesso à moradia, da deterioração dos serviços públicos e da insatisfação de parte dos jovens com suas perspectivas de futuro. As manifestações também refletem críticas às prioridades orçamentárias, especialmente aos investimentos em defesa em um cenário de tensão geopolítica.
França, Espanha, Bélgica, Itália, Portugal e Albânia estão entre os países atingidos por mobilizações com reivindicações específicas, mas conectadas pela percepção de que as políticas públicas não respondem adequadamente às necessidades da população.
O cenário impõe um dilema aos governos: equilibrar as contas públicas, financiar serviços essenciais e ampliar os gastos militares, enquanto enfrentam a pressão de eleitores insatisfeitos e o fortalecimento de partidos que contestam as estruturas políticas tradicionais.
França: cortes no orçamento mobilizam estudantes e trabalhadores
Na França, os protestos começaram na região de Paris, em 17 de setembro, com reivindicações relacionadas à educação. Estudantes denunciaram a falta de professores, a superlotação das salas de aula, a precariedade dos prédios escolares e as dificuldades de acesso ao ensino superior.
Sindicatos e trabalhadores também aderiram às mobilizações, ampliando a pauta para incluir salários, inflação e oposição aos cortes orçamentários.
O governo francês prepara um ajuste de aproximadamente 54 bilhões de euros para 2027, com uma combinação de redução de despesas e medidas tributárias. A proposta alimenta críticas de que os serviços públicos estariam perdendo espaço diante da necessidade de equilibrar as contas e ampliar os investimentos em defesa.
As manifestações francesas também serviram de referência para movimentos em outros países europeus, impulsionados pela circulação de imagens e reivindicações nas redes sociais.
Espanha: crise habitacional ganha símbolo com despejo de idosa
Na Espanha, a crise da moradia ganhou repercussão após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, de um apartamento em Madri onde vivia havia mais de sete décadas.
O aluguel do imóvel aumentou de 440 euros para 1.650 euros mensais, uma alta de 275%. Maricarmen morreu em 7 de outubro, duas semanas após o despejo.
O caso se tornou um símbolo das dificuldades de acesso à habitação no país. Os manifestantes reivindicam medidas de controle dos aluguéis, proteção contra despejos e ampliação da oferta de imóveis a preços acessíveis.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez apresentou medidas emergenciais para enfrentar o problema, mas as propostas foram rejeitadas pelo Parlamento. Em meio à crise política, ele convocou eleições antecipadas para 29 de novembro de 2026.
Bélgica e Itália registram manifestações por serviços públicos
Na Bélgica, estudantes de cidades como Bruxelas e Liège protestam contra o aumento dos custos educacionais e reformas que, segundo eles, dificultam o ingresso e a permanência no ensino superior.
As manifestações também passaram a incluir críticas ao custo de vida. Em alguns episódios, houve confrontos com a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo e canhões de água.
Entre as preocupações dos jovens está a dificuldade de obter qualificação e oportunidades profissionais em um mercado de trabalho competitivo, marcado também pelas transformações associadas à inteligência artificial.
Na Itália, protestos em cidades como Roma, Milão, Florença, Bolonha, Gênova e Turim reuniram pessoas insatisfeitas com os salários, o custo de vida, as condições da educação pública e as políticas do governo de Giorgia Meloni.
Parte dos manifestantes também critica os gastos militares e defende que mais recursos sejam destinados à proteção social e aos serviços públicos.
Portugal: moradia cara e salários baixos alimentam revolta
Em Portugal, o custo da habitação, os baixos salários e aposentadorias e a deterioração dos serviços públicos estão entre as principais reivindicações.
Em Lisboa, manifestantes montaram barracas na praça do Rossio para chamar a atenção para as dificuldades de acesso à moradia. Os preços dos imóveis portugueses aumentaram aproximadamente 124% entre 2015 e 2024.
O problema afeta especialmente os jovens, que enfrentam obstáculos para deixar a casa dos pais e formar suas próprias famílias. Sindicatos também participam das mobilizações, cobrando melhores salários e aposentadorias.
O partido de direita radical Chega relaciona parte da crise habitacional à imigração. O governo português, por sua vez, tem resistido às pressões para alterar suas políticas em resposta aos protestos.
Albânia: manifestantes pedem saída do primeiro-ministro
Na Albânia, as mobilizações incluem reivindicações relacionadas à educação superior, ao desemprego e à falta de oportunidades. Os manifestantes também exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, acusando seu governo de corrupção e favorecimento de interesses privados.
Um dos fatores que alimentaram a revolta foi a controvérsia em torno de um projeto imobiliário de luxo no litoral albanês associado à família Trump.
As manifestações refletem uma insatisfação que vai além das questões econômicas e alcança a confiança nas instituições políticas e na condução do governo.
Inflação e gastos públicos aumentam pressão sobre governos
O aumento dos preços continua sendo um dos fatores centrais do descontentamento. Dados do Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia, indicam que os preços dos alimentos e das bebidas não alcoólicas no bloco subiram 34% entre agosto de 2021 e agosto de 2026.
Ao mesmo tempo, os governos precisam lidar com déficits públicos, demandas por serviços sociais e a pressão para elevar os investimentos em defesa diante das ameaças à segurança europeia, incluindo a Rússia.
Esse conjunto de prioridades cria um impasse político. Reduzir despesas pode ampliar a insatisfação com os serviços públicos, enquanto aumentar investimentos sociais ou militares exige recursos adicionais e decisões sobre tributação e endividamento.
Envelhecimento populacional e imigração entram no debate
Além das dificuldades econômicas imediatas, os países europeus enfrentam um desafio estrutural: o envelhecimento da população. Com uma proporção menor de pessoas em idade ativa em relação ao número de idosos, cresce a pressão sobre os sistemas de previdência, saúde e assistência social.
Uma das respostas possíveis é a imigração ordenada, que pode contribuir para ampliar a força de trabalho e ajudar a sustentar serviços e sistemas previdenciários. No entanto, a defesa de políticas migratórias mais restritivas por partidos de direita radical tornou o tema politicamente controverso.
A discussão sobre imigração se mistura, assim, às preocupações com moradia, emprego, salários e identidade nacional, dificultando a construção de consensos.
Protestos fortalecem partidos antissistema
As manifestações também evidenciam o desgaste de partidos tradicionais e a dificuldade de governos e parlamentos de responder às demandas sociais. A fragmentação política em vários países torna mais complexa a formação de maiorias e a aprovação de medidas.
Nesse contexto, partidos antissistema, tanto à direita quanto à esquerda, encontram espaço para ampliar sua influência. A insatisfação popular também pode pressionar governos a rever prioridades orçamentárias, inclusive os investimentos em defesa.
O desafio dos líderes europeus será conciliar as reivindicações por melhores condições de vida com as limitações fiscais, as mudanças demográficas e as preocupações de segurança. Sem respostas consideradas satisfatórias pela população, a tendência é que a mobilização nas ruas continue ocupando espaço central no debate político do continente.

